Impacto positivo, mas nem tanto
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sábado, 06 de fevereiro de 1999
Cristina Côrtes 
Ainda não é possível analisar com clareza os reflexos da crise cambial na agricultura. A tendência de preços internacionais para o café e a soja depois da desvalorização do real tem sofrido muitas variações. Enquanto a taxa de câmbio não se estabilizar no Brasil, fica difícil estimar com um mínimo de segurança o comportamento do mercado. Este é o consenso entre pesquisadores da área econômica, analistas de mercado e produtores diante das informações durante a semana que está terminando.
Para o agrônomo, pesquisador da área de sócio-economia do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Dimas Soares Júnior, num primeiro momento a subida do dólar recuperaria a defasagem técnica de 25% a 30% ocorrida no preços agrícolas com a implantação do Plano Real. Para produtos da pauta de exportação, como o café a a soja, o impacto da desvalorização do real é positivo, mas não se dá de forma tão linear e mecânica, comenta.
Impactos diferentesA reação dos preços deve ter impactos diferentes para o café e a soja. As cotações do café apresentaram queda nos últimos dias. De acordo com informações da Bolsa de Mercadorias e Futuro de São Paulo (BM&F) os especuladores internacionais entenderam que, com a desvalorização do real, o Brasil inundaria de café os mercados consumidores. Mas, de fato isto não deve acontecer, devido aos reduzidos estoques internos no País, e a previsão de colheita da próxima safra ser inferior em 33% comparada à quantidade de café colhido no ano passado. Portanto, no caso do café, a situação ainda é imprevisível.
Para a soja, as mudanças provocam acentuada competitividade do grão e do farelo brasileiros exportados em grandes volumes, principalmente para os países europeus. O complexo soja responde por aproximadamente 10% da pauta de exportação brasileira. Na análise da BM&F uma boa parcela do incremento em reais resultante da nova taxa cambial deverá ser transferida aos sojicultores.
Em Londrina, o produtor Nagib Abudi também analisa como altamente benéfico para os produtores de soja este momento da economia. Todos os custos de produção desta safra foram feitos antes da desvalorização, portanto a colheita deve render muito bem ao produtor, comenta Nagib. O preço da soja no mercado interno (indicador Esalq/BM&F), expresso em reais apresentou incremento de 10,47% nas últimas semanas.
CautelaO pesquisador Dimas Soares comenta que, quando se está no olho do furacão é difícil fazer uma análise mais clara, porém recomenda cautela ao produtor. Mais do que nunca o produtor deve se manter atento às informações, e não se entusiasmar muito com expectativas de alta ou desanimar com as quedas de preço no mercado externo, orienta.
Quanto ao consumidor, o pesquisador admite que pode começar uma pressão inflacionária com relação aos produtos importados como trigo, arroz e algodão. Na opinião de Dimas o retorno da inflação será péssimo para a sociedade como um todo. A sociedade já pagou um preço alto, com o desemprego e a recessão, para alcançarmos a estabilidade monetária, e não podemos admitir a volta da inflação, pondera. A inflação sob controle é premissa para desenvolvimento e crescimento econômico, completa.
Para as agroindústrias, que não sofrem diretamente o aumento de preços na matéria-prima, as vantagens serão grandes, porque poderão colocar no mercado seus produtos com maior competividade.
ExpectativaA expectativa dos produtores é de que a agricultura possa se recuperar do período em que foi a âncora-verde no Plano Real, com remunerações melhores nesta safra. Para o cafeicultor Wilson Baggio, a esperança é de que a liberação do câmbio melhore a renda da agricultura, mas por outro lado já está havendo um aumento imediato dos insumos. Na sexta-feira liberaram o câmbio e na segunda já tive que comprar um óleo mineral, que se usa com herbicida, pagando 44% mais caro, afirma Baggio.
Os insumos - fertilizantes, herbicidas, inseticidas, fungicidas - já estão todos dolarizados. O vendedor vende em dólar ou pega o valor que vendia antes do dia 13 e divide por R$1,20; acha quantos dólares custava e multiplica pela nova cotação do dolar, para dizer o novo preço.
Segundo Baggio a alta (dos insumos) variou de 40 a 70%, mas como o valor do produto agrícola não é composto apenas de insumos, mas também de mão-de-obra e impostos, o cafeicultor acha que a agricultura deve ser beneficiada, sim.
Deve ser. No momento, a não ser um pouco da safra de café (safra cafeeira 98-99, colhida no ano passado) que está no final, os demais produtos estão em verde, isto é, ainda no campo, a maior parte (caso da soja) ainda para amadurecer. Temos que esperar que alguma coisa melhore. Reclamávamos que o câmbio fixo facilitava maciças importações de vários produtos como o milho, arroz, trigo (que é quase na totalidade importado), além de produtos industrializados e tudo mais. Agora, com dificuldade de importar, devido à desvalorização do real, acredito que nosso produto tenha maior competitividade.
O produtor comenta também que todos os produtos de exportação caíram em dolar. O café perdeu uns 25 dólares por saco. Na soja, no milho, em tudo perdeu-se valor em dólar. Vamos receber um pouco mais de real por causa do câmbio. Não havendo garantia de preço para nada, como não há, a desvalorizçaão derruba o preço em dólar, analisa.
A coisa pior que eu vejo como empresário são os juros extremamente altos. A manutenção desses juros no patamar em que se encontram, vai acabar liquidando e sufocando as empresas. Não tem quem aguente pagar juro de 50% ao ano. Estamos vivendo dias muito incertos, finaliza.


