Iapar testa o nime há dez anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 1996
Silvana Leão 
O nim, cultivado há séculos por civilizações do Oriente Médio e que vem sendo descoberto por produtores de Goiás como poderosa arma no controle biológico de insetos, é pesquisado há 10 anos pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), podendo tornar-se uma boa opção de cultivo também por aqui. O Iapar tem cerca de 40 pés, plantados com a finalidade de testar sua adaptação na região, mas interrompeu temporariamente as pesquisas com a árvore. O trabalho deve, porém, ser retomado no próximo ano.
Com o retorno, em breve, da pesquisadora Sueli Martinez de Carvalho, que trabalhava no assunto e foi fazer doutorado no Exterior, o Iapar deverá dar início ao plantio da espécie em várias regiões do Estado, além de testar o inseticida obtido a partir das sementes, explica o pesquisador Paulo Guilherme Ribeiro, da área de Fitotecnia do Instituto. Ele lembra que, enquanto em Goiás, onde está sendo testada pelo Centro de Pesquisa de Arroz e Feijão da Embrapa, a planta vem sendo chamada de nim, no Iapar os pesquisadores acharam mais correto chamá-la de o nime (assim mesmo, no masculino).
Segundo Paulo Guilherme, o nime (Azadirachta indica), planta nativa da região do Himalaia, é a espécie mais estudada no mundo como inseticida natural. Sua presença é tão marcante na literatura especializada que, de acordo com o pesquisador, as primeiras pesquisas em busca de um inseticida biológico para o feijão foram realizadas com a santa-bárbara (conhecida também como sinamomo), planta comum no Paraná, que tem grandes semelhanças com o nime. Mas como havia muito mais informações sobre o nime, demonstrando sua maior eficiência em relação à santa-bárbara, optou-se por mudar o objeto de estudo.
Adaptação Entre as principais semelhanças do nime com a santa-bárbara estão as folhas e o formato dos frutos. No caso da santa-bárbara, porém, a brotação é mais densa e as folhas são mais claras, além de mais macias. Uma diferença fundamental entre as duas plantas é que o nime não apresenta a capacidade de produzir novas mudas a partir da exposição das raízes na superfície do solo, como acontece com a santa-bárbara. A coloração das flores também é diferenciada. Na santa-bárbara são de tonalidade lilás, no nime são amareladas, quase brancas.
As dezenas de pés de nime existentes no Iapar foram obtidas a partir de sementes trazidas das Filipinas. Paulo Guilherme explica que a sua adaptação, até pouco tempo atrás, vinha sendo muito boa. Recentemente, porém, algumas plantas que já entraram na fase reprodutiva começaram a acusar a presença de um fungo (gomose), comum nos cítricos, que causa o apodrecimento da casca na base do tronco (também chamada de colo). Com a queda da casca, o tronco fica exposto e começa a secar, impedindo a circulação da seiva e levando a planta à morte.
A explicação para o problema, segundo o pesquisador, pode estar no tipo de solo local, que retém muita água. O nime é originário de regiões bem mais secas que a nossa; por isso acreditamos que a doença tenha aparecido em função da estrutura da terra roxa, que faz com que fique muita água armazenada na base do tronco. Se esta tese se confirmar, a pesquisa poderá indicar o plantio do nime em regiões de solos com melhor drenagem, como os arenosos.
Planta versátil Devido às várias finalidades apresentadas pela árvore, o fitotecnista acha que ela não deveria ser cultivada apenas para obtenção de sementes, muito ricas em óleo (42%) - este, por sua vez, é utilizado nos mais diversos campos, como medicina, indústria de cosméticos e no combate a pragas agrícolas. O ideal, para Paulo Guilherme, é que o cultivo tenha também outras finalidades, como obtenção de madeira (o nime faz parte da mesma família do mogno), reflorestamento e utilização das folhas como inseticida.
Nas regiões de origem, a espécie tem um grande valor simbólico. É a planta que dá sombra aos peregrinos que vão a Meca, lembra o pesquisador do Iapar, acrescentando que a população do Nepal a utiliza nos animais numa série de tratamentos de ectoparasitas (principalmente carrapatos) e vermes (neste caso, o óleo é ingerido inclusive por pessoas).
Conforme Paulo Guilherme, o Iapar deverá retomar as pesquisas com o nime em 97, confirmando os bons resultados registrados nos livros. Mas embora exista um bom número de plantas em fase reprodutiva, o que deve gerar um volume considerável de sementes, ainda não se sabe como deverá ser feito o repasse da espécie aos produtores interessados em testá-la, se através das próprias sementes ou na forma de mudas, que deverão ser produzidas no Instituto.


