''Não podemos deixar acontecer com o Iapar o que aconteceu com Jesus Cristo, que foi morto aos 33 anos''. A frase foi proferida pelo presidente da Câmara Setorial do Café, Francisco Galli, em discurso realizado na semana passada durante o lançamento da variedade de café IPR 99, produzido por pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). No dia 29 de junho, o Iapar completa 33 anos em meio à pior crise de sua história.
Basta uma volta pelos corredores e laboratórios para constatar que pesquisadores e funcionários carregam um sentimento ambíguo. Eles mal conseguem disfarçar o orgulho pelas conquistas, mas também não escondem a apreensão pelo futuro. ''Há uma sensação de frustração e de abandono pelo governo'', diz o agrônomo Marcos Valentin Ferreira Martins, responsável pelo setor de transferência de tecnologia do Instituto.
A crise, para a equipe do Iapar, tem duas vertentes: perda salarial e falta de pessoal. O último reajuste dos salários ocorreu há oito anos, a defasagem passa dos 80%. O último concurso para a contratação de pessoal ocorreu em 1992. Na época havia 1.406 funcionários. Atualmente há 816 pessoas: ''o quadro ficou 42% menor em 13 anos'', informa comunicado da assessoria de imprensa.
Antonio Costa, diretor científico da Instituição, ressalta que nesses 33 anos o Iapar consolidou um nome forte no cenário científico nacional e, em alguns casos, até internacional. Ele enumera conquistas, como o plantio direto e rotação de culturas; a definição do modelo de integração lavoura pecuária; o sistema de produção de leite a pasto; a implantação de redes de referência na agricultura familiar; a revitalização da cafeicultura com o modelo adensado e o sequenciamento do genoma do cafeeiro (projeto nacional coordenado pelo geneticista Luis Gonzaga Vieira, do Instituto); as técnicas para conviver com o cancro cítrico que viabilizaram a cadeia da citricultura no Paraná e as mais de 100 variedades geradas pelo programa de melhoramento genético.
Mas é o futuro que preocupa os pesquisadores. A pesquisa exige tempo para apresentar resultados. ''O padrão tecnológico da agricultura que praticamos hoje é resultado de estudos que se iniciaram 20, 30 anos atrás'', explica Carlos Roberto Riede, especialista em melhoramento de trigo aposentado que também segue na ativa como voluntário.
Dimas Soares, pesquisador e também presidente do Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia, segue o mesmo raciocínio. ''Por ação ou por omissão, estamos desenhando hoje a agricultura que o Paraná vai praticar nas próximas décadas. Se nada for feito, o Estado corre o risco de enfrentar no futuro uma espécie de 'apagão' tecnológico'', alerta. Mas ele vai além do aspecto tecnologia, ''trata-se de investir em massa crítica, capaz de planejar políticas públicas que mantenham a competitividade da nossa agricultura em um mundo globalizado, e de garantir a profissionalização da agricultura familiar, predominante no Paraná'', conclui.
Tiago Pelini, outro especialista em economia rural do Iapar, também aponta para o futuro. Para ele, o Centro-Oeste brasileiro vai se consolidar como o grande produtor de grãos no país. ''Não quer dizer que o Paraná vá deixar de produzir soja, mas devemos buscar alternativas para diversificar os sistemas de produção e oferecer novas possibilidades de renda aos produtores'', opina.
Para a equipe do Iapar, é enorme o desafio. Antes de enfrentá-lo, porém, a instituição precisa garantir a própria sobrevivência. ''Os cristãos acreditam que Jesus Cristo morreu, aos 33 anos, para salvar a humanidade. No ano em que o Iapar completa a mesma idade, buscamos um caminho para a salvação do instituto'', resumem os funcionários.

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