Iapar - Os desafios dos próximos 25 anos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de junho de 1997
Florindo Dalberto 
Neste seu primeiro quarto de século de existência o Iapar, órgão oficial do Governo do Estado para pesquisa agrícola, vinculado à Secretaria de Agricultura e do Abastecimento, cumpriu um papel estratégico na superação de algumas etapas bem marcadas do desenvolvimento tecnológico da agricultura do Paraná. A própria criação do Instituto constitui uma dessas etapas. Nascido de demandas claramente explicitadas do setor produtivo (a Sociedade Rural do Paraná liderou um amplo movimento para a instalação do Iapar em Londrina no início dos anos 70), na época como entidade moderna e diferenciada, rompia com os padrões convencionais vigentes no setor público, através das equipes multidisciplinares, da estrutura matricial, do sistema de operação por projetos, da estreita vinculação com o setor produtivo e de inúmeros outros atributos determinantes para a realização eficaz de sua missão.
A flexibilidade e autonomia decorrentes desse modelo permitiram vencer a etapa de sistematização e adaptação do conhecimento já disponível e aplicável à agricultura paranaense. Na década de 70 a instituição deu um suporte importante ao amplo processo de transformação e diversificação que marcou o setor agrícola do Estado. Ao mesmo tempo, com a pesquisa local já em pleno desenvolvimento, dá-se início à formulação de um modelo próprio para essa mesma agricultura, praticado a partir dos anos 80.
É este modelo que coloca a agricultura do Paraná como uma das mais produtivas e eficientes do País e mesmo, em alguns aspectos, como paradigma a nível internacional. Alguns destaques desse modelo: o manejo do solo referenciado ao nível de microbacias; as variedades regionalmente adaptadas com suas sementes de alta qualidade; o conhecimento detalhado do solo e clima, com o zoneamento agrícola daí derivado; as tecnologias de manejo integrado de pragas e doenças que reduzem os impactos ambientais; o plantio direto para a pequena propriedade, proporcionando sustentabilidade à agricultura familiar; os sistemas de produção que viabilizam produtos de importância histórica ou potencial para o Paraná, como o café adensado, a citricultura, a seringueira para o Noroeste, o novilho precoce e tantas outras tecnologias largamente difundidas pelas entidades parceiras como a co-irmã Emater.
São todas inovações que já se transformam em realidade no cenário da economia agrícola, através de políticas públicas que geram oportunidades de investimentos privados e que, no seu conjunto, configuram a matriz do desenvolvimento econômico e social do agronegócio do Paraná.
Todavia, a dinâmica das transformações globais que o mundo vivencia hoje, questiona permanentemente qualquer modelo, por mais adequado que possa parecer. Assim, o principal desafio que se apresenta para uma instituição de pesquisa tecnológica é a permanente mudança do ambiente que a cerca. Cabe então a pergunta: como será a agricultura do Século 21, para a qual o Iapar deve estar trabalhando hoje? E, consequentemente, como deverá ser a instituição (re) estruturada para responder às demandas emergentes desse cenário em mutação?
A revolução que se percebe na agricultura para o próximos anos (e o Paraná não estará fora dela) sugere transformações radicais. O impacto das tecnologias de ponta nos processos produtivos se fará sentir na acentuada substituição do trabalho físico pelo conhecimento. A tecnologia biológica, representada por variedades profundamente alteradas através da biotecnologia, promoverá o atendimento a demandas específicas de alimentos e reduzirá substancialmente o uso de insumos químicos. A preocupação da sociedade com problemas ambientais e com a sustentabilidade dos ecossistemas demandará métodos produtivos alternativos aos atualmente em uso. A busca da competitividade, derivada da globalização dos mercados, promoverá a utilização de técnicas que levam à chamada agricultura de precisão, essencialmente embasada na microeletrônica.
Essa visão de uma agricultura altamente tecnificada, no entanto, confronta-se com a realidade brasileira e, com certeza, paranaense, onde ainda por um bom período de tempo far-se-ão presentes nichos de exploração familiar com padrões de produção mais simples.
Em paralelo a essas mudanças tecnológicas, vislumbram-se também novas formas de relação entre os vários agentes econômicos do agronegócio. A integração das cadeias produtivas será acentuada, ampliando-se a necessidade de rápidas respostas às demandas dos consumidores, de forma a se garantir a competitividade e sustentabilidade não só de cada elo, mas sim da cadeia como um todo.
Esse previsível cenário da agricultura do Século 21 leva as instituições de pesquisa tecnológica desse setor a um questionamento de seus modelos atuais. É a crise da mudança gerando desafios e oportunidades. Como será, então, o Iapar dos próximos 25 anos?
Apesar de sua história de sucesso até agora, o Iapar não escapa hoje dos problemas que têm afetado os órgãos públicos de pesquisa. São problemas de ordem mundial decorrentes, por um lado, da própria mudança do padrão de produção e do processo de geração de conhecimento, e por outro da crise do Estado, em que se questiona, também, a nível global, o seu papel e seu modelo de gestão. Esta situação se traduz na prática em problemas de recursos financeiros, de burocracia, de falta de flexibilidade e autonomia para realizar uma gestão qualitativa (notadamente em relação a recursos humanos especializados), tudo isso consubstanciando um impasse que só pode ser vencido com criatividade e determinação.
A necessidade de novos arranjos institucionais é premente, embora não se tenha ainda modelos prontos e testados. Existem no entanto caminhos claros a serem trilhados, no sentido de se identificar novos e mais fortes mecanismos de articulação, tanto com outras organizações de pesquisa como com o setor produtivo. É evidente, também, a necessidade de autonomia de gestão, associada à adequada participação da sociedade, assegurando o direcionamento estratégico, a transparência dos processos gerenciais e a avaliação permanente de seus resultados.
Tudo isso compõe um quadro rico de oportunidades para o Iapar e para o agronegócio paranaense. Instituição com 25 anos, possui maturidade interna e um grau de articulação externa que permitem formular e apresentar propostas concretas e inovadorass de mudança, algumas já encaminhadas a nível governamental. Propõe-se preservar o caráter público (mas não estatal) da instituição, viabilizando a atuação junto ao mercado de tecnologia do agronegócio e inaugurando tipos inovadores de relacionamento com o Governo, através de contratos de gestão. São mecanismos que, ao lado da flexibilidade gerencial, dinamizam o comprometimento da instituição e do seu quadro de funcionários com o atingimento da missão do Iapar, agora renovada e ampliada face aos cenários emergentes.
São idéias novas, num contexto de Governo do Estado e de Sociedade que sempre buscaram inovar. A reformulação do Iapar neste limiar do Século 21 representa, portanto, um processo tão inovativo quanto foi o da sua própria criação na década de 70.
Na concretização dessa mudança, o Paraná estará demonstrando, mais uma vez, que realiza uma gestão transformadora também na administração, na busca de novo perfil para o setor público, tanto quanto alcança novo perfil econômico, ambos direcionados para o objetivo maior da qualidade de vida de todos os paranaenses.
O autor é engenheiro agrônomo, especialista em Administração de Pesquisa, membro-fundador e diretor-presidente em exercício do Iapar.


