Hora e vez da qualidade da carne
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sexta-feira, 04 de junho de 2004
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
Uma antiga reivindicação dos pecuaristas brasileiros está dando os primeiros passos: a criação de um sistema brasileiro de classificação de carcaças de bovinos, que irá oferecer aos consumidores indicativos de qualidade como sexo, maturidade animal, peso e acabamento da carcaça.
Até 31 de dezembro deste ano, a adesão dos frigoríficos ao sistema será voluntária. A partir de 2005, esses estabelecimentos serão obrigados a adotar o mecanismo. A aferição da qualidade dos animais e das respectivas carcaças será feita durante o processo de abate, por profissionais habilitados e credenciados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e será custeada pelo setor privado.
As atividades do Registro Oficial de Classificadores (ROC) serão coordenadas por um Comitê Gestor que irá representar pecuaristas, frigoríficos, comércio
varejista e setor de pesquisa e ensino. Relatórios entregues até o dia 5 de cada mês serão elaborados por classificadores com registro no Mapa, que deverão ser diplomados em Medicina Veterinária ou Zootecnia e registrados em seus respectivos conselhos de classe.
Os profissionais irão participar de um curso de capacitação, que discutirá além da regulamentação e operacionalização do sistema de classificação, anatomia, fisiologia, histologia, produção e sanidade animal, inspeção e tecnologia da carne, noções básicas de gestão empresarial e requisitos técnicos do comércio internacional.
Os laudos com a classificação dos animais terão quatro vias, a primeira para o classificador, a segunda para o estabelecimento industrial - que encaminhará cópia ao distribuidor e ao mercado varejista -, a terceira para o fornecedor dos animais e a última para o encarregado da Secretaria de Inspeção Federal (SIF).
Com a implantação do sistema classificatório, os criadores deverão ser melhor remunerados pela carne e couro oferecidos ao mercado. Se antes o peso do animal ditava o seu preço, com a classificação, a qualidade passará a determinar o ganho do criador. ''Com a bonificação, as carcaças de melhor qualidade serão valorizadas, favorecendo também os frigoríficos, que receberão carnes mais bem acabadas'', argumentou o presidente da Associação Brasileira do Novilho Precoce (ABNP), Constantino Ajimasto Jr.
Segundo ele, a remuneração extra irá variar entre -4%, para depreciação da carcaça sem qualidade, até +8%, considerados o sexo, o peso, a idade no abate e a cobertura de gordura do animal. ''Para efeito da bonificação, consideram-se também a qualidade do couro e a rastreabilidade do animal. A classificação das carcaças tem como limite 5%; a de couro 2% e a rastreabilidade 1%, totalizando 8%'', informou Ajimasto Jr.
Para o analista de mercado Fabiano Rosa, a verdadeira questão é saber se o mercado irá premiar os criadores que investem em qualidade ou punir os que não investem com a diminuição dos preços, como aconteceu com os animais não rastreados.
''Se estimulado, certamente o produtor irá investir em qualidade, podendo até mesmo modificar o manejo dos animais, aumentando os investimentos em genética e alimentação'', disse Rosa, ressaltando que a classificação das carcaças irá gerar animais ideais para atender o mercado externo, impulsionando ainda mais as exportações de carne bovina brasileira, que em abril deste ano superaram em 51% as do mesmo mês de 2003.
O pecuarista londrinense Eduardo Caldeirão também acredita que, em parte, o manejo deverá ser modificado para que o criador produza carnes com mais qualidade. ''Certamente os produtores que trabalham com o sistema tradicional de criação deverão realizar modificações e investir em tecnologias diferenciadas para a produção'', comentou.
Investimentos em genética, uso de semi-confinamento ou confinamento para incrementar a alimentação do gado e escolha da raça mais adequada ao tipo de carne a ser produzida podem ser algumas das mudanças experimentadas pelos criadores, segundo Caldeirão.
Ele espera, assim como todo fazendeiro, ser remunerado pela produção de uma carcaça que atenda aos padrões de qualidade nacionais e internacionais. ''Não basta só a tipificação, deve ocorrer também a remuneração diferenciada pelo melhor produto. É dessa forma que o produtor se sentirá estimulado a produzir com qualidade''.
Para o diretor de exportação do frigorífico Amanbai, de Maringá, João Martins, a diferença nos preços se dará com a 'punição', pelo próprio mercado, dos criadores que menos investem em tecnologia. ''O consumidor não irá sentir diferença no preço, pois o mercado é soberano e dita as regras. O que poderá acontecer é os produtores menos tecnificados receberem menos pelas suas carcaças'', analisou.


