Hora de decidir a safra de verão
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sexta-feira, 17 de julho de 1998
Cláudia Barberato 
Mesmo em plena safra de inverno o agricultor já pode planejar o que plantar na próxima safra de verão. Neste ano quem decidir pela soja, por exemplo, aconselham os técnicos, pode antecipar a compra de sementes. As chuvas durante a colheita da safra passada, não só no Paraná, mas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, prejudicaram a qualidade dos grãos que seriam destinados à produção sementes. A soja ocupa, normalmente, a maior área da safra de verão no Estado.
Prevê-se que, se neste ano for plantada, no Paraná, área de soja igual à da safra passada, (2.820.000 hectares), serão necessários 4 milhões 800 mil sacos (de 50 quilos) de sementes. Mas a produção desse insumo deverá ficar ao redor de 3 milhões a 3 milhões 500 mil sacas. E não há a alternativa de comprar em outros Estados.
No Rio Grande do Sul e Santa Catarina o prejuízo com a chuva também foi grande, afirma o gerente comercial da Cooperativa Agropecuária de Produção Integrada do Paraná, com sede em Londrina, Luiz Yamashita. Segundo técnicos da Integrada, uma estimativa ainda extra-oficial indica uma quebra de 40% na produção de sementes no Rio Grande do Sul e Santa Catarina; e uma redução em 30% no Paraná.
Dorico da SilvaBaba, Tokushina e Yamashita. Técnicos orientam tratamento da semente de soja este anoCompra e tratamentoO plantio da soja é feito em outubro/novembro, mas o agricultor deverá ter as sementes um tempo antes, suficiente para fazer o tratamento indicado pela assistência agronômica. Nessa safra, segundo o superintendente de vendas de sementes da Cooperativa Integrada, Kazuo Jorge Baba, o tratamento será imprescindível, para garantir boa germinação.
Depois de cada safra a cooperativa recebe o que será destinado à produção de sementes e beneficia o produto. Em meados de setembro técnicos da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab), fazem análise de uma amostragem e liberam seu uso, de acordo com testes de germinação feitos em laboratório.
Só é liberado o lote que tenha índice de germinação acima de 80%. A queda na produção deste ano, por exemplo, pode levar agricultores a usarem grãos de qualidade de germinação inferior, o que deverá resultar no uso de maior número de sementes por área.
O coordenador técnico da Integrada, Aderson Tokushina, esclarece que uma análise preliminar do que será uma boa semente pode ser feita ainda no campo. Basta colher umas vagens e abrí-las. Grãos de soja danificados pelo excesso de chuva perdem coloração e brilho.
O tratamento de sementes é feito com fungicidas e evita que fungos proliferem e destruam as plantas. Esses fungos podem ficar fora dos grãos e permanecerem mesmo depois da colheita, ou até penetrarem na soja e depois se desenvolverem no momento do plantio, em condições de temperatura e umidade favoráveis.
Solo bem cuidadoOutra medida importante, lembra Yamashita, é fazer análise de solo. Se o produtor souber as condições do solo, poderá optar pela melhor variedade a cultivar. Quem faz financiamento de custeio, tem que apresentar análise de solo a cada dois anos, por exigência do banco, avisa.
Num solo bem preparado, segundo Baba, o produtor deverá optar por variedades mais produtivas. Um agrônomo ou técnico poderá ajudar na escolha da variedade mais correta, uso de adubação, fertilizantes e outros insumos.
Milho ou soja?Há perspectivas de que na próxima safra a área de soja seja maior em função do preço do milho. O milho-safrinha, ainda em colheita, promete alta produção e, com isso, menor cotação. A opção em busca de melhores preços, no verão, deverá ser pela soja.
Segundo Yamashita, o aumento da área de soja também depende do mercado internacional; do que acontecerá com a safra dos Estados Unidos. Se houver qualquer contratempo por lá, vai ser bom para o Brasil; se não, poderemos operar com preços mais baixos.
No caso do algodão, outro cultivo de verão, ainda não há previsão oficial de área, até porque o plantio é feito mais tarde do que soja e milho. Segundo Yamashita, há dois anos houve incremento do algodão, em função de incentivo do Governo, que financiava a fundo perdido uma área de seis hectares. Este ano há possibilidade de um novo programa. Também no caso do algodão o produtor terá que se planejar e não deixar para comprar insumos na última hora.
Compra antecipadaO diretor-secretário da cooperativa, Júlio Akira Koyama, produtor de soja no Paraná e na Bahia, já adquiriu parte das sementes que vai usar na próxima safra. Koyama tem uma área de 87 alqueires no Paraná. Na Bahia, cultiva 400 alqueires de soja e 300 alqueires de milho. Ele já comprou as sementes para a área do Paraná. Para a área de soja da Bahia já adquiriu 50% das sementes.
Koyama comprou antes para economizar no preço e pela tendência de falta do produto. Ele comenta que só a perspectiva de falta de sementes fez com que a saca subisse de R$24,00 para R$28,00. Segundo ele, no caso da Integrada, todos os cooperados (1600) são informados do que vai acontecer no mercado; mas tem muito produtor que deixa para definir o cultivo na última hora. Se isso acontecer este ano, poderá ficar sem sementes.
Outros manejosO recomendado é não plantar 100% da propriedade com uma só cultura. Os técnicos aconselham dividir o cultivo de verão. Mas tem produtor que, sempre atrás das têndencias de mercado, além de deixar para decidir na última hora, acaba plantando somente uma cultura, avalia Tokushina. Neste ano, com a estimativa de alta produção do milho-safrinha, devendo baixar o preço do milho, muita gente deverá correr para a soja, em busca de melhores cotações, como aconteceu no ano passado.
Os técnicos da Integrada têm indicado o uso do plantio direto aos cooperados. No geral, a área vem aumentando no Paraná e já é uma necessidade em função das condições de solo do Estado. A adoção da tecnologia não é fácil, demanda investimentos, mas deve ser feita por etapas. Para isso é preciso ter um terreno bem preparado, máquinas plantadeiras adaptadas e bem reguladas, avisa o técnico Aderson Tokushina.
Segundo Júlio Koyama, que faz o plantio direto, a tecnologia proporciona ganho de tempo e não se perde época de plantio. Ele trabalha com rotação de culturas, fazendo soja e milho no verão e aveia preta e nabo forrageiro, além do trigo, no inverno.
Produção de sementesA produção de sementes de soja, em geral, é feita por cooperativas e outras empresas particulares. No caso do milho a produção está mais concentrada em empresas multinacionais. Segundo os técnicos da Integrada, ao que parece, não haverá problemas na disponibilidade de sementes de milho para a safra de verão. Quem tem a produção de sementes no Sul do País sofreu perdas, também em decorrência de chuvas na colheita da safra normal; mas será compensado pelas áreas que são mantidas nos Cerrados, onde não ocorreu muita chuva durante a colheita.
Definida a lavoura a ser cultivada (milho, soja, algodão), os técnicos alertam que o produtor deverá seguir as mesmas recomendações de análise de solo, compra e escolha de melhores variedades, tratamento de sementes (se for o caso) e outros manejos. Eles lembram que também é importante, no momento da colheita, regular bem as máquinas e ter cuidado no transporte da safra, para não haver maiores perdas.


