Nascido e criado em sítio, no município de Jundiaí do Sul, Jorge Garrido sabia que, em algum momento da sua vida, surgiria a oportunidade de voltar às origens. Os estudos de formação em Medicina e a especialização em Cardiologia haviam-no levado para longe: Manaus, Rio de Janeiro. A prática da profissão recambiara-o para o interior, Santo Antônio da Platina, onde se estabeleceu em janeiro de 1979. Foi nessa época que, trabalhando de 12 a 15 horas por dia numa atividade tensa e estressante, procurou uma forma de relaxar e de refazer as energias. Encontrou-a em uma chácara, comprada quando nasceu sua primeira filha, hoje com 19 anos. Pela coincidência do momento feliz, as duas foram batizadas com o mesmo nome: Juliana.
Localizada muito próxima da cidade, o que facilita a locomoção do médico, em casos de urgência, a chácara de 1 alqueire revelou potenciais até então insuspeitados. Utilizada especialmente nos fins de semana pela família que cresceu, com a chegada de Marilena e Jorge, hoje com 15 e 13 anos de idade, e pelos amigos, em suadas partidas de futebol suiço e em animadas pescarias à beira do lago, a propriedade começou a ficar intensa e estranhamente povoada.
''Ganhei algumas aves exóticas de pacientes'', conta Garrido, ''e acabei me afeiçoando a elas e me animando a começar uma criação''. Além disso, como revela a amazonense Helena, esposa de Garrido, ao lhe dar a oportunidade de voltar às raízes, a chácara acabou se tornando ''a vida dele''.
Por esse ''refúgio de descanso'', que serve especialmente ''para recarregar as baterias'', como explica o médico, ''para enfrentar sem stress o dia-a-dia'', desfilam cerca de 1.000 aves, de pelo menos 50 espécies diferentes, dentre as quais destacam-se o marreco pompom, o ganso sinaleiro chinês, o cisne negro, o irerê, a galinha de Angola e outra de origem espanhola, mais conhecida por ''cara de palhaço'', além dos deslumbrantes pavões - azuis e brancos. Ao lado das aves, que convivem harmoniosamente entre si e usufruem total liberdade de ir e vir por onde lhes aprouver, ali criam-se também carneiros suffolk (cara preta), cerca de 30, puros de origem, cujos reprodutores começam agora a ser comercializados ''em valores que giram em torno de R$ 400,00'', como informa Garrido.
Mas comercialização não é mesmo a principal finalidade da chácara Juliana. O mais apropriado talvez fosse recorrer ao termo experimentação. Cada metro quadrado da área é bem aproveitado e, sempre que possível, o que se produz num lugar acaba sendo utilizado em outro. Assim, o humus produzido pela minhoca, a partir do esterco de carneiro, é utilizado como adubo nas inúmeras espécies de árvores frutíferas do recém-formado pomar, de 2 mil m2, e nas mais exóticas, que vicejam à beira do lago. ''As frutas caem na água'', explica Garrido ''e servem de complemento alimentar para os peixes''. O principal, nesse caso, é o esterco de marreco, que costuma defecar dentro do lago. Com isso, como diz o médico, obtém-se uma reprodução, em miniatura, do fascinante ciclo da vida: ''A tilápia alimenta-se do esterco do marreco, o pintado alimenta-se da desova da tilápia e nós comemos o pintado''. Mas poderíamos, igualmente, comer pacus e tambacus (cruzamento de pacu com tambaqui), outras variedades presentes na fauna aquática local, cuja finalidade é apenas oferecer os elementos indispensáveis a uma boa pescaria.
Seguindo esse princípio, as aves são tratadas com o que a natureza oferece: uma mistura balanceada de milho, farelo de arroz, napier e cana-de-açúcar, além de verduras diversas, que vêm diretamente da horta da chácara. E apesar da existência de uma chocadeira, é possível utilizar, vez ou outra, uma similar da nossa ''ama de leite''. É o caso das pavoas, que não se mostram muito pacientes com as exigências da maternidade. Por isso, seus ovos são transferidos para as peruas disponíveis, que têm se revelado, segundo Garrido, ''ótimas chocadeiras''.

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