Hidroelétrica de Capivara
Era um belíssimo sítio, bem cuidado e com muita fartura, o do padrinho Rodrigo. Tinha uma boa lavoura de café, uma palhada onde se plantavam mandiocas, milhos, vassouras, abóboras e melancias entre outras culturas. A casa era bem grande com vários quartos, pois tinham um filho e cinco filhas. Uma bela horta cuidada pela madrinha e as meninas. O pasto ia até o pequeno córrego, que era um afluente do caudaloso rio Paranapanema, que divide os Estados do Paraná e São Paulo. No pasto vivia a mula "calçada" e três ou quatro vacas para o leite e os queijos.
No início dos anos 1970 surgiu o boato que logo abaixo seria construída uma hidroelétrica por nome de Capivara e que toda a região seria coberta pela represa da hidroelétrica. Passado um tempo, todos foram convidados para participar de uma reunião no salão paroquial do vilarejo. Lá foram informados que a região seria em breve toda alagada e que seus proprietários seriam indenizados. Foram muitas discussões, brigas, mas sem conseguirem reverter o quadro.
Dias depois começaram a aparecer os "picaretas" (agenciadores) propondo todos os tipos de negócios aos sitiantes. Vendendo carros, casas na cidade, terras em outras localidades etc, etc. Era o dia todo esses "espertalhões" descendo e subindo os carreadores das propriedades.

Certo dia, o padrinho Rodrigo recebeu a visita de três desses "picaretas" propondo a venda de uma fazendinha no Mato Grosso, próximo à divisa com o Estado de São Paulo. Por várias semanas, diariamente compareciam à casa do padrinho. Tinham um "escritório" próximo à Igreja Imaculada Conceição em Londrina. Depois, levaram o padrinho para conhecer a tal fazenda, que voltou encantado com a propriedade. Fez o negócio e dias depois mudou com a família para o Mato Grosso.
Passado alguns meses recebemos uma carta da família do padrinho, nos informando que tinham perdido tudo. Foram expulsos da propriedade por jagunços dizendo que a fazenda tinha dono. Estavam morando de aluguel na cidade. As filhas estavam trabalhando de domésticas e o filho como "boia-fria".
Um ano após, Nica, a filha mais velha, nos envia uma nova carta informado a morte do padrinho, inconformado e em grave depressão. Entre outras notícias, dizia que a Claudeli, uma das mais novas, revoltada, foi trabalhar no "bar das mulheres". Meus pais jamais se conformaram com essa história.
SIDNEY GIROTTO, leitor da FOLHA





