Grande desafio é manter filhos no campo
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sexta-feira, 26 de julho de 2002
Cláudia Barberato<br> Reportagem Local 
Não chega ainda a ser uma regra geral, mas o número de jovens que está saindo da zona rural a procura de uma ''vida melhor'' na cidade cresce a cada dia. Nas propriedades com áreas inferiores a 50 hectares e mão-de-obra familiar a renda da atividade agrícola, em geral, não tem remunerado o que se espera. Além disso, conta também o fato da segurança que o emprego na cidade pode proporcionar.
A agricultura é atividade de risco, sujeita a intempéries e frustrações, e não representa a segurança do emprego na zona urbana. Para se encaixar no mercado de trabalho, o jovem da zona rural está sendo incentivado, pelos próprios pais, a estudarem mais e concluírem pelo menos o segundo grau. Quando isso acontece os pais, incentivadores da formação educacional, se assustam, mas continuam tocando a vida na esperança de que um dia um dos filhos volte e tome conte do negócio, mesmo que à distância.
''Sempre algum deles acaba voltando; quem nasce no campo não esquece sua raiz,'' afirma o agricultor Nelson Bianchini, de Ibiporã (11 km de Londrina) no Norte do Paraná. Dos quatro filhos de Nelson, apenas a filha mais nova, de 15 anos, ainda continua morando no sítio.
O próprio Nelson, décimo filho de uma família de doze irmãos durante algum tempo trabalhou no sítio dos pais e depois de casar com Desolina, que também morava no sítio, foi viver na cidade. O sítio que recebeu de herança dos pais foi arrendado para o plantio de café.
Depois de viver na cidade Nelson acabou retornando a zona rural. Duas das filhas casaram e o filho, que até dois anos trabalhava na propriedade, hoje faz faculdade e trabalha. ''A renda no sítio é pouca'', argumenta Nelson. ''Não dá para sustentar todo mundo. Além disso a vida aqui é sacrificada. Não posso segurar os filhos, mas creio que eles darão continuidade ao nosso trabalho, nem que seja colocando alguém aqui para cuidar.''
Na cidade Nelson trabalhou numa agência bancária e depois na prefeitura. Deolinda cuidava dos filhos e ajudava nas despesas de casa como costureira. Hoje os dois e mais um funcionário avulso tentam dar conta da propriedade, altamente diversificada com objetivo de ter várias fontes de renda.
A propriedade tem 36 hectares e além da soja, trigo ou milho safrinha no inverno, e café, há uma horta, piscicultura e frangos para corte, numa parceria com uma integradora da iniciativa privada. De todas as atividades apenas a horta está arrendada. Com a saída do filho mais velhos o casal Bianchini ficou com uma sobrecarga de trabalho. ''O que era para ser uma propriedade altamente diversificada, com objetivo de fornecer várias fontes de renda, acabou representando um problema.''
A renda anual dos três integrantes da família é de R$ 14.900,00, o que dá uma média de R$1.240,00. O resultado impede a contratação de mais mão-de-obra, pois sobraria menos para a família. Nelson e Desolina praticamente não têm folga semanal e nem férias anuais. Já fizeram um passeio na praia, interrompido por um problema no sítio.
O sítio, no entanto, fica cheio no final de semana. A casa construída em 1986 é de alvernaria e tem 115 metros quadrados, três quartos, sala, cozinha, dois banheiros, área de serviço e uma ampla varanda. No quintal há uma pequena piscina e lugar dos churrascos no final de semana. Os filhos e netos aproveitam para brincar na piscina, pescar, jogar truco e cantar no videokê instalado na varanda da casa. Nelson e sua esposa pensam em continuar morando no sítio e que os filhos, mesmo da cidade, possam dar uma continuidade no trabalho deles.
O objetivo principal da família é a estabilidade de renda para permanência no sítio, mas existe consciência de que essa renda seria insuficiente para que o filho e as filhas pudessem voltar a morar no campo.
Hoje a qualidade de vida do casal e da filha é considerada satisfatória pelo agricultor. Eles têm acesso a serviços essenciais de educação e saúde, meios de transporte, informação e comunicação. A alimentação é variada e de qualidade. Ali se produz para consumo o leite, a carne bovina e suína, as frutas, verduras e legumes. Há também o peixe, o frango e a alface que são produzidos para comércio com sobras para consumo. No trabalho, porém, há uma sobrecarga de tarefas.


