Governo traça perfil do produtor
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sexta-feira, 02 de maio de 1997
Agência Estado 
Arquivo FolhaContrastesO Brasil possui áreas altamente desenvolvidas tecnologicamente e outras que usam técnicas rudimentares de plantioO Governo quer traçar um perfil do agricultor brasileiro, para ter alternativas de políticas setoriais de médio e longo prazos e transformar o Brasil em um grande provedor de alimentos para o mundo. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) já começaram a trabalhar na pesquisa de campo encomendada pelo Ministério da Agricultura, para saber onde investir os recursos públicos e conhecer mais de perto o potencial da chamada agricultura familiar.
Há informações, que o Ministério espera confirmar na pesquisa, de que a idade média do agricultor brasileiro seria de 32 anos, enquanto no resto do mundo a média é superior a 50 anos. Além de saber quem é quem na agricultura, o Governo quer conhecer a situação da agropecuária brasileira em relação a alguns indicadores, como níveis de produção e de renda, adoção de tecnologia, acesso às políticas governamentais, alternativas de emprego e renda, entre outros.
O presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal, afirmou que a pesquisa deverá custar R$ 1,2 milhão e os recursos virão do Ministério da Agricultura e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Segundo ele, em função de sua participação no mercado, os agricultores serão divididos em três estratos: a agricultura comercial ou empresarial, onde o produtor participa totalmente do mercado, com acesso a crédito, tecnologia e vendas ao Exterior; a agricultura em transição, que engloba os que ora estão no mercado e ora fora dele; e a agricultura de subsistência, com predomínio da pequena produção.
O secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Ailton Barcelos Fernandes, explica que a pesquisa deverá indicar o grau de competitividade atual da agricultura, já que os últimos dados detalhados do setor são da década de 80. O mundo vive um momento histórico de muita relevância para a agricultura brasileira e a estabilização econômica é a chave para se entender esse processo, diz Barcelos.
ProblemasAilton Barcelos avalia que, nos últimos 30 anos, a agricultura nacional padeceu de dois problemas: o Brasil misturou o conceito de modernização com industrialização e, de certa forma, deu as costas para a agricultura, acreditando que ela estava vinculada ao País antigo. O que importava era a indústria automobilística e se deixou de olhar as oportunidades no setor.
O outro problema era a inflação, que não permitia que um negócio de risco como a agricultura tivesse condições de competir com a ciranda financeira. Com a estabilidade, Barcelos acredita que o Brasil começou a ver suas grandes vocações, e os agronegócios são uma oportunidade de ouro no contexto mundial.
Ele analisa mercados potenciais, como a China e a Indonésia, e conclui que é no Brasil onde ainda existe espaço, terra e condições climáticas de produção para consumo mundial. O Brasil tem, no mínimo, 250 milhões de hectares líquidos para a agricultura e só usa 35 milhões, diz ele, acrescentando que a capacidade de produção na Europa, Ásia e Estados Unidos está praticamente esgotada.
SubsídiosA pesquisa vai levantar o perfil de emprego e produção da agricultura familiar; a propensão dos membros da família a migrarem ou permanecerem no meio rural; o padrão da renda familiar em comparação com a do setor urbano; taxas de reprodução das famílias, situação dos trabalhadores rurais empregados nos médios e grandes estabelecimentos rurais e o potencial da agricultura familiar na produção dos alimentos consumidos pelas camadas mais pobres da população. Com isso, o Governo terá subsídios para direcionar sua política de investimentos no setor, diz Barcelos.
Ele lembra o grande potencial da fruticultura brasileira, da horticultura e dos grãos. Temos uma safra de 72 milhões de toneladas de grãos, enquanto os Estados Unidos produzem, só de milho, 250 milhões de toneladas, e a China produz 450 milhões de toneladas, compara. Com base no resultado da pesquisa, será proposto um conjunto de políticas públicas para desenvolver a agricultura familiar e aumentar a oferta de alimentos.
RealidadeSegundo o pesquisador do Centro de Estudos Agrícolas da FGV, Mauro Lopes, responsável pela pesquisa na instituição, quando falamos sobre os produtores rurais, não sabemos mais quem são eles e nem do que necessitam, seja em termos de recursos, seja em tecnologia. Ele lembra ainda que, após a abertura comercial e o grande endividamento no campo, já não se tem idéia de como está, de fato, a situação dos ruralistas. Temos conhecimento de que há gente cultivando trigo com resultados muito bons, sem recorrer a crédito público. Portanto precisamos, por exemplo, descobrir como é o trabalho desse tipo de produtor, assinala.
Como explicou Mauro Lopes, a Embrapa quer saber, entre outras coisas, quais os recursos tecnológicos que os produtores usam, os resultados obtidos, quais eles poderiam usar e que papel a tecnologia está representando na atividade dos mais bem-sucedidos. Já a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que também participa do trabalho (inclusive com recursos), quer um mapa mais detalhado do que se está produzindo em cada região.


