Governo subestima crise na agricultura
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sexta-feira, 28 de abril de 2006
Evaristo Machado Netto 
A agricultura brasileira enfrenta a pior crise dos últimos 40 anos e o conjunto de medidas anunciado no início de abril mostra que o governo subestima o tamanho e a proporção do problema para o país. As conseqüências desastrosas do descaso já podem ser medidas na forma de queda do PIB em muitas cidades do interior, nas quebras de safra e no aumento do desemprego.
O Brasil já foi o maior exportador mundial de frango, carne, soja, álcool, açúcar e café. Porém, sucessivos incidentes de ordem climática, sanitária e econômica, aliados à falta de dedicação do governo para solucioná-los, levaram a uma quebra de safra de 18 milhões de toneladas de grãos em 2005 e à diminuição de 3% na área plantada para a safra 2006. Os recursos de crédito rural - que alcançaram R$ 80 bilhões no final dos anos 80 - não chegam aos R$ 40 bilhões desde a década de 90.
Em 2003, bastavam 2,76 sacas de soja para comprar um litro de fungicida; em 2005, foram necessárias 4,13 sacas, uma diferença de 30%. No caso de tratores, a perda do poder de troca chega a 67% nos últimos dois anos.
Até quando o Governo Federal vai ignorar estes dados? Hoje, apenas 30% dos recursos para financiamento agrícola vêm do governo; o restante fica por conta da iniciativa privada, dos fornecedores de insumos, das cooperativas e também do capital de giro dos produtores rurais. Estes, porém, já estão fora do jogo do autofinanciamento há muito tempo. As cooperativas serão as próximas a sair. Já suportaram a quebra da safra passada e investiram na atual, mesmo com a queda do dólar, estiagem, falta de recursos e de infra-estrutura adequada.
A inércia do governo pode encobrir a valorização da agricultura familiar, único setor onde os subsídios têm aumentado. Porém, diferentemente da agricultura empresarial, na familiar não é a produtividade que conta, mas a ocupação e a permanência do homem no campo. Ela deve complementar na produção de alimentos, essencial para a estabilidade do país, isto é, dos 180 milhões de brasileiros.
Como isso não ocorre, a conseqüência é que o árduo trabalho para construir as bases de uma agricultura forte e profissional está desmoronando. E essa situação não será resolvida com a troca de pessoas no comando da política oficial. As medidas necessárias para estancar e reverter a crise são conjunturais. O remédio existe, mas a cada dia fica mais caro. Algo que poderia ser resolvido com medidas oportunas, passa a exigir soluções mais complexas quando os pleitos são ignorados ano após ano.
A conclusão é simples: o governo atual tem uma visão distorcida, não enxerga a agricultura como o grande negócio que vem garantindo de fato a estabilidade da economia. Esta condução equivocada é ruim para o Brasil e para todos os brasileiros. A conta do descaso será dividida entre todos e pode demorar para ser quitada.
Evaristo Machado Netto, presidente da OCESP (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo) e vice-presidente da ABAG (Associação Brasileira de Agribusiness)


