A decisão do governo de reduzir para 600 o número de fazendas aptas a exportar carne para a União Européia (UE) desagradou a iniciativa privada. O presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, disse que o governo deveria manter a lista inicial, com 2.681 fazendas. ''As deficiências são burocráticas, não técnicas. Ou o governo mantém as 2.681 fazendas ou não manda nada'', criticou.
O presidente da Associação Nacional de Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC), André carioba, tem a mesma opinião. Ele considera absurda a submissão do governo brasileiro às exigências da UE, orquestradas pela Irlanda. ''O Brasil produz carne de qualidade, seguindo as normas da Vigilância Sanitária, que são corretas. A carne européia tem um processo de maturação que a deixa quase putrefata. Como podem questionar a qualidade do nosso produto?'' pergunta Carioba. A submissão do governo, destaca o produtor, ocorre desde que o País entrou no mercado exportador da carne.
O secretário de Estado da Agricultura de Minas Gerais, Gilman Viana Rodrigues, afirmou que a exigência da UE de credenciar apenas 300 propriedades fere as regras internacionais de comércio. ''Não pode haver discriminação'', disse. Ele lembrou que é impossível escolher fornecedores se as condições sanitárias são iguais.
Na Europa, os consumidores já sentem no bolso os reflexos do embargo da UE à carne brasileira. Em alguns países do bloco, os preços da carne subiram até 20%, segundo Sérgio De Zen, professor da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP).
Especialista em pecuária de corte, esta semana ele participou, na Inglaterra, de reuniões com pesquisadores de todo o mundo para discutir questões relativas ao tema. Os certificados de exportações para o bloco deixaram de ser emitidos no dia 1º de fevereiro.
Para o pesquisador, os preços da carne continuarão subindo no mercado europeu. ''A expectativa é de novas altas. O Brasil é um grande fornecedor e nenhum outro país tem capacidade para ocupar esse espaço no curto prazo'', disse De Zen. A oferta de carne produzida por outros grandes fornecedores, como Argentina, Estados Unidos e Austrália, não deve aumentar no curto prazo, avaliou. ''A Argentina tem dito que o preço dos grãos está elevado e que várias áreas de pastagem das melhores terras argentinas estão sendo convertidas ao plantio de soja e milho, deslocando o boi para regiões menos produtivas.''
De Zen acredita que a pressão para o fim do embargo à carne brasileira virá dos consumidores europeus. ''Não será possível aguentar essa situação (de aumento de preços) por muito tempo'', disse. Ele afirmou que o embargo beneficia apenas os produtores irlandeses, que fizeram pressão para que a carne brasileira fosse barrada. ''A decisão de suspender as compras tem o objetivo de elevar os preços internos para que alguns países possam se manter no mercado sem a necessidade de subsídio.''
Para André Carioba, o fim do embargo também depende da mobilização das entidades do setor no Brasil e de uma ação firme do governo. ''Não adianta ficar só ameaçando ir à OMC (Organização Mundial do Comércio); é preciso, de fato, procurar a organização para defender o Brasil nesta questão'', opina.
As associações de produtores devem, segundo Carioba, se manifestar oficialmente, fazendo chegar aos compradores externos o seu posicionamento, ação que independe do governo. Segundo ele, está programada uma reunião em Goiás, quando será elaborado um documento a ser encaminhado ao governo brasileiro e à OMC.

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