Globalização: Qualidade
Globalização: Qualidade
Décio Luiz Gazzoni
Historicamente, o preço de um produto ou de um serviço tem relação direta com a competitividade. Em épocas passadas esta era a diretriz condicionante do quinhão de mercado do produto ou serviço. Emblemática desta época era a postura vigente - em especial no serviço público - da adjudicação da licitação exclusivamente pelo critério do menor preço. O critério da especificação técnica, e de outros atributos de qualidade, é uma inserção relativamente recente das decisões de consumo individuais ou corporativas, considerando-se o longo período em que a Humanidade se dedica às trocas comerciais.
Porém, é sob a égide de mercados que a qualidade atinge seu patamar máximo como condicionante das decisões de aquisição, sendo condição sine qua non para a penetração nos mercados mais exigentes, e para a manutenção do nichos de mercados mais disputados. Esta é uma característica marcante nos mercados do Primeiro Mundo, em que o atributo Qualidade já antecede o quesito preço na análise decisória dos compradores.
A preocupação com a qualidade reflete-se na febre da busca de certificação de qualidades - as chamadas séries ISO - em que o Brasil figura entre os países que maior esforço vêm despedendo na perseguição de um padrão internacional de qualidade, que lhe permita no futuro próximo igualar-se aos países que já têm um conceito de qualidade solidificado no mercado.
A par da qualidade de apresentação, do design do produto, da embalagem e demais acessórios, do ponto de vista dos produtos derivados da agropecuária, a qualidade pode ser entendida sob três ângulos principais:
a. Qualidade visual.É a primeira sensação transmitida ao consumidor, através da cor, da forma, da textura externa e da ausência de defeitos agronômicos, representados por deformações provenientes de técnicas de cultivo ou criação inadequadas, ou sequelas que denunciem status zoo ou fitossanitário impróprio. Neste caso, embora sem a presença do agente causal, o produto pode apresentar manchas, cicatrizes, redução de tamanho ou outra alteração de forma, resultado da ação de pragas agrícolas ou pecuárias, que depreciam o produto;
b. Qualidade fisiológica.Esta qualidade é caracterizada pelas sensações organolépticas de sabor ou perfume, assim como de outros sentidos como o tato. Incluem-se nesta categoria a sensação física provocada pela mastigação, o equilíbrio entre os componentes do sabor - incluso o after taste - a sensação que permanece na boca após a mastigação. A responsabilidade primária pela elevada qualidade fisiológica é dos institutos de pesquisa, que criam as novas cultivares e raças, adequadas à demanda dos consumidores. Porém, compete ao produtor e ao processador a observância das condições para que o potencial genético seja expressado em toda a sua amplitude.
c. Qualidade sanitária.Os mercados mundiais tornam-se mais exigentes a respeito da qualidade sanitária dos produtos destinados à alimentação. Contaminantes biológicos e químicos, resultado de um baixo nível sanitário das culturas e criações, passam a ser limitantes à penetração nos mercados compostos por consumidores de níveis de informação e de exigência mais elevados. Por outro lado, os governos dos países têm perfeita consciência de que um elevado nível sanitário é um patrimônio nacional, um parâmetro que agrega valor aos produtos no mercado internacional. Como tal, refugam-se as partidas de produtos que sejam acompanhadas de contaminantes que possam representar uma nova ameaça à sanidade do país importador.
O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa-Soja.





