Globalização e competitividade
Globalização e competitividade
Décio Luiz Gazzoni
O princípio ideológico e filosófico, assumido por todos os países signatários da convenção da Organização Mundial do Comércio (OMC), é o de envidar esforços e implementar medidas positivas para incrementar o comércio internacional. Neste sentido, todas as barreiras fiscais e para-arancelárias (barreiras não tributárias) estão sendo gradativamente reduzidas ou desativadas, propiciando um incremento jamais experimentado anteriormente nas trocas comerciais em nosso planeta. Porém, neste contexto são permitidas medidas para regulamentar o comércio entre os países, relativamente às especificações que devem conter, desde que cientificamente embasadas.
Prenuncia-se para os próximos anos uma ampliação das oportunidades comerciais, ao tempo em que deve acirrar-se a competição pelos nichos de mercado mais disputados, ou seja, os dos países mais ricos, de maior renda e maior capacidade de consumo. Importa então circunscrever os principais fatores que confinarão à marginalidade do mercado aqueles que não se enquadrarem nos requisitos de competitividade. Alguns destes requisitos são tão antigos quanto o próprio mercado, apenas assumindo novas feições ou proporções no novo ambiente, enquanto outros passam a assumir maior importância nos cenários que são traçados.
O preço sempre representou um diferencial competitivo nas relações comerciais da Humanidade. No entanto, na perspectiva de globalização de mercados, em que se sobrepõem os conceitos de mercado interno e externo, o diferencial de preços, mesmo que em baixos percentuais, pode significar a diferença entre negócios em expansão ou em extinção. Por definição, em um ambiente competitivo a tendência projetada de preços é a da constante redução. O piso do processo de deságio ou redução progressiva de preços é o custo de produção e a combinação produtividade/custo da unidade. Em um ambiente de livre e alta competição projetado no longo prazo, cria-se a dualidade entre apropriação de renda (expansão do lucro) por agente comercial, e a transferência de benefícios aos consumidores (redução de preços).
A própria dinâmica do mercado promove o equilíbrio entre as duas tendências. O preço reduz-se até atingir o piso representado pelo custo de produção de uma parcela expressiva de produtores. A estes restam duas opções: reduzem seus custos ou são alijados do mercado. O novo ponto de equilíbrio é representado pelo novo patamar de custos, reiniciando-se o processo. Cabe então analisar os dois aspectos:
a.Custo de produção - A formação de preços é um processo extremamente complexo, sendo condicionado por externalidades que nem sempre estão ligadas diretamente ao produto ou à sua cadeia produtiva. Entretanto, os custos fixos e variáveis de produção podem ser administrados, dentro de determinados limites, pelo produtor ou por organizações de produtores. É importante reduzir custos pelo gerenciamento dos fatores de produção, em especial dos insumos técnicos, da mão-de-obra e dos recursos financeiros.
Neste aspecto, o treinamento gerencial dos produtores ou seus administradores é um aspecto importante a considerar na busca da competitividade. A adequação tecnológica e o elevadostatus sanitário das culturas e dos rebanhos é condição sine qua non para conferir competitividade.
bProdutividade/custo unitário - O conceito fundamental é que, para cada cultura ou aninal, existe um determinado potencial genético de produtividade, que apenas se expressa em sua totalidade se não existirem condições para a sua expressão. Entre estas restrições estão o clima, o solo (aspectos químico, físico e biológico) e a condição sanitária. Vislumbram-se duas grandes oportunidades, quais sejam, as de expandir a potencialidade genética e a de reduzir as restrições à sua expressão.
Em ambos os casos o elevado patamar tecnológico (e sanitário) será o responsável pela geração da condição de competitividade. Porém, apenas o uso adequado de tecnologia, sob rigoroso controle técnico, permitirá que as tecnologias apresentem a sua máxima eficiência econômica na exploração agropecuária.
Em resumo, o produtor ou a organização de produtores que perseguir preço competitivo deverá buscar um elevado status tecnológico e sanitário, complementado com capacitação em administração rural, para que as culturas e os rebanhos possam expressar sua máxima potencialidade genética, acompanhada da máxima eficiência econômica.
O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa-Soja.





