"O pecuarista ficou para trás e precisa mudar sua cultura." É com essas palavras que o professor do departamento de zootecnia e coordenador do Centro da Informação do Agronegócio (CIA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Rossi Junior, inicia suas ideias de como transformar a atividade no Estado que hoje, segundo ele, está bem defasada em comparativo com outras cadeias de carne, como a avicultura e suinocultura.
Segundo ele, o pecuarista de corte paranaense não pode ter a "pretensão" de brigar com produtores de outros estados no sentido de volume comercializado – já que a soja ganhou muita força e áreas nos últimos anos -, mas sim de qualidade da carne. "Precisamos investir pesado nisso, numa carne e animais de qualidade, já que não haverá um retração da agricultura. Temos condição de competir com países como o Uruguai. Hoje, não vendemos qualidade, mas produtos de volume, parte dianteira do animal, para países como Egito, Arábia Saudita, Rússia, entre outros."
Para atingir estes patamares, o especialista cita alguns pontos fundamentais, como a mudança de cultura e adoção de tecnologias. "O pecuarista sempre foi o cara que sabe tudo e faz tudo. É preciso mudar este conceito. E olha que a questão não é nem de inventar a roda, mas adotar as tecnologias que já estão no mercado. Hoje a pecuária está no tempo das cavernas comparada a outras atividades."
Por isso, a capacitação e investimento em pessoas é fundamental. Hoje, segundo Rossi Junior, "há um abismo gigantesco entre agricultura e pecuária", na contratação de funcionários. Ele cita como exemplo que um operador de trator altamente especializado ganha R$ 3,5 mil mensais, mais comissão por produtividade no Mato Grosso. "A pecuária não capacitou as pessoas e isso acabou levando à falta de mão de obra especializada no mercado. Há profissionais que sabem de tudo um pouco, mas nada muito aprofundado. Em contrapartida, isso está mudando. Conheço um projeto em uma fazendo do Mato Grosso do Sul onde há um programa de treinamento permanente com os peões, inclusive com aulas de inglês uma vez por semana", cita.
Além de mudança cultural, adoção de tecnologias e capacitação de mão de obra, o professor fecha com um ponto bem importante: a gestão da propriedade. Apesar de parecer uma característica já discutida, ele salienta que ainda se depara com muitos pecuaristas que mal fazem anotações básicas, ligadas, por exemplo, à evolução de engorda dos animais. "Muitas vezes se contratam profissionais para dar uma solução técnica, mas não financeira. Isso não pode estar dissociado. Não adianta nada colocar cinco animais por hectare, se o produtor está ganhando menos dinheiro."
Hoje, existem sistemas complexos conectados a internet que fazem todos os tipos de análises possíveis, com os mínimos detalhes. Dados que precisam ser analisados e colocados como estratégias para ações futuras. "Anote tudo e depois analise esses dados. É preciso cruzar informações para ver o quanto se está ganhando com tudo isso. O pecuarista não pode ser apenas contábil, mas também gerencial. Não pode ficar olhando apenas para trás, mas adiante, com análise de fluxo de caixa, orçamento e, claro, correções de erro que estejam ocorrendo."
Apesar de todas as ações que ainda precisam ser trabalhadas, o professor salienta que o Estado tem todo o potencial para se tornar um grande produtor de carne bovina de qualidade, com uma gestão qualificada.

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