Gente que move a terra e a economia
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sexta-feira, 24 de julho de 2009
Fernanda Mazzini<br> Reportagem Local 
Do trabalho se fez a vida; da esperança, o futuro; e da terra, o conhecimento. A labuta diária no campo é um sem fim de esforços. Trabalho de sol a sol, sem descanso, e ainda é preciso uma boa colaboração de São Pedro: não pode ter sol demais, nem chuva demais. Órfão, João Francisco hoje com 73 anos chegou a Londrina com oito anos. Sangue de agricultor nas veias (como ele mesmo define), veio para trabalhar no campo acompanhado por uma família adotiva. Logo depois os pais voltaram para a terra natal, em Pernambuco, João Francisco ficou e aqui fez sua vida.
Sem nem mesmo saber o nome dos pais biológicos e a sua data de nascimento, João Pernambuco como é conhecido conseguiu reverter o seu destino. Casou, tem quatro filhos e sete netos, comprou um sítio de três alqueires, de onde tirou o sustento da família. Viu a cidade crescer, estudou os filhos e conseguiu aumentar o seu patrimônio: tem uma outra pequena propriedade em Alvorada do Sul e mais alguns arrendamentos, onde cultiva soja, milho e trigo. Passou pelos ciclos agrícolas do café e do algodão, mas a geada e as doenças, respectivamente, o levaram a optar pelas commodities.
Hoje a agricultura é melhor. A tecnologia facilitou, antes era mais manual, não rendia tanto. Era um dia para colher um alqueire de soja, lembra João Pernambuco. Ele aprendeu a evoluir com a agricultura e aderiu rapidamente às novidades, como o plantio direto e a mecanização das lavouras, inclusive, com colheitadeira própria. O preço (dos produtos agrícolas) está razoável, não tem prejuízo, conta. Mesmo com o crescimento das cidades, ele e a família optaram por ficar no campo. Além das lavouras, a propriedade abriga uma horta que garante a sua participação na feira livre aos domingos apenas por gosto árvores frutíferas e criações de suínos e de frangos, para consumo próprio.
João Pernambuco é um dos 373 mil produtores rurais paranaenses ou não que ajudaram o Estado a se transformar no celeiro do Brasil. Dados da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) mostram que apenas 2,3% da área total do território nacional é o suficiente para atingir o topo do ranking na produção de milho, feijão, trigo e cevada. O Paraná ainda é o segundo produtor de soja, cana-de-açúcar e leite; terceiro de laranja e de suínos; e o quinto de café. O agronegócio agricultura, agroindústria e comércio de insumos respondem por 35% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado.
A agropecuária (produtos primários) tem influência direta na economia como um todo. Quando a agropecuária vai mal toda a economia vai mal, salienta Júlio Suzuki, coordenador de Conjuntura do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Como exemplo ele cita que em 2005 ano em que a agropecuária não registrou bom desempenho o PIB do Estado caiu 0,1%. O Ipardes acompanha a divulgação das estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e, por isso, os dados mais recentes são de 2006. Naquele ano a produção da agropecuária participou com 8,3% do total do PIB estadual. O resultado é 2,3 pontos percentuais menor do que o atingido em 2002 (veja quadro).
É bem provável que em 2007 e 2008 a participação da agropecuária tenha aumentado, mas o índice não mostra que esse setor perdeu o dinamismo, mas que os outros (indústrias e serviços) cresceram, avalia Suzuki. No total, a agropecuária do Paraná participa com 9,7% no PIB da agropecuária nacional. O Estado tem a quarta maior participação, atrás de São Paulo (16,5%), Minas Gerais (13,9%) e Rio Grande do Sul (11,7%). A agricultura estadual é bastante representantiva porque no PIB geral a participação do Paraná não chega a 6%, informa.
A terra paranaense, pronta para produzir riquezas e alimentos, pode até revelar uma realidade dura, mas não chega a causar desilusões. João Pernambuco, o garoto que chegou no final da década de 40, acompanhou a evolução dos tempos e viu a cidade encostar na zona rural. Daquele tempo, lembra da fertilidade da terra vermelha quando não era preciso nem adubo , mas também não reclama. Pode até ter uma seca mas, depois, acaba chovendo para recuperar a lavoura. Sempre consigo pagar as contas, diz.


