O produtor brasileiro tem que tomar consciência que para aumentar sua participação no mercado mundial de carnes, é necessário um grande investimento no controle de doenças e na certificação de processos produtivos. É preciso dar segurança ao consumidor, seja ele de onde for, no que se refere à sanidade do alimento que está sendo ofertado.
O episódio da disputa Brasil x Canadá é um forte sinal do que os produtores terão que enfrentar para conquistar mercados internacionais. Mesmo com custos de produção mais competitivos e qualidade de produto não se pode deixar brechas para que barreiras sanitárias sejam impostas. Foi assim com a aftosa e virão outras.
O Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo, com aproximadamente 160 milhões de cabeças e iniciou 2000 como o terceiro exportador mundial, com uma fatia de 9% no mercado internacional, atendendo a demanda com apenas 9% da sua produção. A Austrália, que é hoje o maior exportador mundial atende 18% do mercado externo com 63% de sua produção, e o Estados Unidos participa com 15%, ocupando o segundo lugar..
Tempos difíceis ‘‘Na conquista do mercado externo não devemos esperar um mar de rosas daqui para frente. A competição nos mercados internacionais é duríssima e a conquista de pequenas fatias exige muito empenho e seriedade. Os exemplos são inúmeros, com o açúcar, café solúvel, calçados, aço, tecidos, frango e assim por diante’’, avisa o presidente da Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Carlos Viacava.
Segundo Viacava o Brasil é competitivo em custo de produção e pode conquistar compradores da Europa e Ásia. ‘‘A produção na Europa tende a diminuir na medida em que o consumidor vai rejeitar carne proveniente de gado alimentado em confinamento e preferir um produto mais natural, caso da carne de animais que são criados a pasto.’’
Carne boa A carne brasileira, de acordo com Viacava, é mais segura do ponto de vista sanitário porque o nelore, 80% da pecuária de corte, alimenta-se basicamente de capim, não recebendo ração de origem animal, que foi aliás, segundo técnicos, a causa do surgimento da doença da vaca louca na Europa.
O presidente da Associação de criadores de nelore acredita que a raça, base do rebanho nacional, criada em pastagens de brachiária nos Cerrados pode fazer do Brasil o maior produtor e exportador de carne do mundo.
O embargo da carne brasileira pelo Canadá, na opinião de Viacava, pode afetar a imagem do País diante de compradores e de novos clientes. ‘‘Os danos porém são menores do que aparentam hoje ser, pois ficou evidente que o embargo canadense não se justifica técnicamente, sendo claramente uma retaliação à questão das aeronaves. Na verdade é uma represália canadense à questão da concorrência da Embraer com a Bombardier. Há denúncias sobre as ligações espúrias entre a Bombardier e funcionários do alto escalão do Governo do Canadá.’’
Custo competitivo Segundo Viacava, os EUA deram demonstrações de que não endossam plenamente a posição canadense. ‘‘Mas não há dúvidas que se preocupam com a possibilidade de perder mercados para o Brasil. A tendência de nossa produção é de crescimento, porque produzimos carne de excelente qualidade a um custo 50% inferior ao americano e 40% inferior ao autraliano.’’
O Brasil, de acordo com Viacava é o segundo maior produtor de carne do mundo com aproximadamente 6,5 milhões de toneladas por ano. ‘‘As exportações totais representam mais ou menos 9% desse total, ficando 91% para o consumo interno, mais um pouco de importações (em torno de 30% do valor exportado no ano 2000). As exportações para o Canadá são de apenas US$ 5 milhões, que representa 0,5% por cento do valor exportado em 2000 (US$500 milhões) e 0,05% da produção brasileira. Se incluirmos os EUA, o boicote representa 2,5% da exportação e 0,25% da produção brasileira.’’
Atraso O presidente do Fundo de Desevolvimento Pecuário de São Paulo (Fundepec), Pedro de Camargo Neto, acredita que o ‘‘incidente’’ poderá provocar um atraso na conquista da cota de carne in natura para os EUA. ‘‘Estamos agora conquistando os mercados para onde a União Européia exportava. Mas o Brasil deverá recuperar rapidamente sua imagem. A competição nos mercados internacionais é dura e a conquista de pequenas fatias do mercado exige muito empenho e seriedade.’’
Segundo Camargo, as restrições de compra pelo Canadá da carne brasileira não teriam maiores consequências se o caso ficasse só entre os dois países. Acontece que Canadá, EUA e México formam o Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Por esse acordo entre os três países toda vez que um deles tomar uma decisão, como a de suspender a importação de qualquer produto, alegando risco à saúde do consumidor, os outros dois países terão que seguir a mesma regra.
Ele teme que a medida tomada pelo Canadá, além de induzir outros mercados a suspenderem a importação, possa levar o consumidor brasileiro a perder a confiança no produto. O mercado interno, segundo Camargo, é o grande ativo da pecuária, pois o País exporta apenas 9% do que produz. Ele destaca que a exportação é muito importante, não tanto em termos de maior rendimento, mas também na formação do preço do boi no mercado interno, que também tem potencial para continuar crescendo. Na sua opinião, o governo do Canadá está misturando uma questão de saúde pública com uma disputa comercial.
Brecha O veterinário canadense Brian Evans que integra a missão que está no Brasil, composta também por representantes do EUA e México, para analisar medidas de controle da doença da vaca louca no País, garantiu na última quarta-feira que o problema é de segurança alimentar e descartou outras disputas.
Ele disse que o Canadá reconhece que não existe doença da vaca louca nos animais nativos do Brasil, mas fez restrições sobre os animais importados pelo País nos anos 90, originários de países onde a vaca louca já foi diagnosticada. O temor dos canadenses é de que animais europeus usados para reprodução, depois do fim da vida reprodutiva, tenham sido destinados ao abate.
O Ministério da Agricultura, atendendo pedido canadense, determinou que animais importados dessas localidades e que não estejam em reprodução sejam sacrificados. Segundo o MA nos últimos 20 anos foram importados quase 5 mil reprodutores.
De acordo com alguns técnicos, normalmente esses reprodutores, quando terminam sua vida reprodutiva, mesmo se encaminhados ao abate não teriam uma qualidade de carne tipo exportação e seriam absorvidos mesmo é pelo mercado interno.

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