Gaiolas vazias, cantorias de agradecimento

A maioria das pessoas tem seus caprichos, hobbies. Muita gente gosta de colecionar objetos, outros preferem mexer com plantas, cozinhar ou pescar. Eu não sei pescar e nem cozinhar, e não tenho paciência pra jardinagem. Quem me conhece sabe que eu gosto de passarinhos. Desde criança. Lembro de quando eu e meu irmão mais velho fazíamos as tarefas da escola em cima de árvores. Minha família era numerosa, de origem italiana, por isso havia muita conversa dentro de casa.
Nosso quintal era grande, cheio de árvores frutíferas e para poder estudar em silêncio nós fizemos assentos de tábuas num pé de guabiroba e num pé de caqui. Meu lugar era na guabiroba e o dele no caqui. Sentados no topo das árvores, ficávamos horas debruçados sobre cadernos e livros, que içávamos para a copa das árvores por meio de uma cordinha.
Meu irmão, o Chico, conseguia estudar, mas eu não tinha jeito de me concentrar. Com tantas frutas e insetos, a passarada vinha toda hora se alimentar. Aí eu largava os cadernos e ficava admirando os pintassilgos, canários, sanhaços, cardeais, sabiás, tico-ticos, coleiras, bem-te-vis, tiês-sangue e outros pássaros, que volta e meia pousavam bem perto de mim. Espécies mais graúdas como o pica-pau e o tucano também apareciam por lá, dando o ar de suas graças.
Enquanto o Chico estudava, eu ia aprendendo sobre cantos, hábitos, tipos de ninhos e épocas de acasalamento do passaredo. Tempos depois eu construí um grande viveiro e colocava lá os mais belos passarinhos que conseguia capturar. Tratava-os bem, com boa comida, água limpa e ficava alegre quando nasciam filhotes. Por isso não entendia quando às vezes, na volta da escola, encontrava o viveiro aberto e vazio. Todas as aves tinham ganhado a liberdade.
Trinta anos depois, minha irmã Rosângela contou que era ela, com dó dos bichinhos, quem fazia regularmente a soltura. Nessa ocasião, disse a ela que eu os prendia para admirá-los e não por maldade, pois os amava. Tal como hoje as pessoas prendem um cachorro ou gato num apartamento. Com dezenove anos o Chico passou no vestibular para engenharia e eu só entrei na universidade aos vinte e um. Minha mãe dizia que eu ficava perdendo tempo com passarinhos.
Já adulto, mantive durante muitos anos canários em gaiolas, comprados de criadores. Gosto de dar nomes aos pássaros. Por último tive um casal de canários ao qual dei os nomes de John Lennon e Yoko Ono. Antes eu havia tido o Rolando Boldrin, o Jerry Adriani e o Gonzaguinha, todos exímios cantores. Agora mudei a estratégia para poder observá-los. Abandonei as gaiolas e não tenho mais pássaros presos. Coloquei um comedouro no quintal, num pé de pitanga e duas vezes por semana compro laranjas e bananas para alimentá-los. E eles aparecem o dia todo.
Sanhaços de várias cores, bem-te-vis, pardais, sabiás-laranjeiras, sábias-pocas, galos-do-campo, cambacicas e um casal de aves com o dorso preto, peito branco, cauda comprida, olhos amarelados e bico vermelho, cuja espécie ainda não soube identificar. O macho chega primeiro, começa a comer e canta para chamar a fêmea. Em seguida ela se alimenta, enquanto ele fica cuidando do lugar. Depois cantam juntos e saem voando mundo afora. Pelo fato de cantarem bem afinados e em homenagem àquela antiga dupla sertaneja, resolvi chamá-los de Cascatinha e Inhana. Acredito que gostaram, pois todos os dias voltam pra me visitar.
Gerson Antonio Melatti, leitor da FOLHA





