Função importante de equilibrio
Desde o início do século, o sistema cooperativista agropecuário produz números significativos para a economia brasileira. As 1.437 unidades são responsáveis por 30% da produção nacional e mantém 35% da capacidade de armazenamento do País. Elas produzem 62,19% do trigo brasileiro, 38,91% do algodão, 29,40% da soja, 27,97% do café, 39,21% da aveia e ainda 31,52% dos suínos. São 857 mil agricultores associados, sendo que 92% tem menos de 100 hectares, 107 mil empregos diretos, perto de 1 milhão de pessoas diretamente vinculadas às cooperativas e quase 5 milhões indiretamente. Esse volume de riqueza chega a 6% do Produto Interno Bruto.
Apesar do gigantismo desses números, o sistema cooperativista, no Brasil e no mundo, precisa ter o seu modelo redefinido para poder enfrentar os efeitos da globalização econômica, do liberalismo comercial e do consequente aumento da competitividade internacional. Para o superintendente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) Valdir Colatto, o momento do cooperativismo é de busca de uma identidade própria diante das necessidades do novo milênio. Profissionalização, auto-gestão e adminstração competente são os caminhos apontados por ele para enfrentar a alta da concorrência externa. O cooperativismo é uma doutrina de 150 anos e tem sido a solução para os problemas que o capitalismo não consegue resolver tanto na área econômica como social. Há um trabalho aqui e a nível mundial para que o cooperativismo seja muito bem definido como uma organização que leva trabalho e renda em áreas onde os governos não conseguem chegar, observa.
Efeitos da globalizaçãoColatto afirma que, nos últimos cinco anos, as cooperativas agrocupecuárias começaram a sentir os efeitos da globalização. Como as cooperativas não tem capital de giro, já que o capital é constituído das cotas partes dos associados, os quais tem o mesmo direito de voto e de participação independente se são grandes ou pequenos, não há como concorrer com as grandes multinacionais do setor de grãos, de carne, de insumos e de leite que entraram para dominar o mercado brasileiro. O sistema cooperatista tem, dentro desse novo mercado, exercido uma função importante de equilíbrio em relação à manutenção dos preços para que os produtores não sejam ainda mais explorados, afirmou.
Mas ele admite que as pequenas unidades não estão tendo condições de enfrentar a concorrência dos grandes grupos. Muitas delas - diz - estão num processo de fusão, de incorporação, para que possam formar centrais cooperativistas. Com isso, ganhariam força de escala, na medida em que passariam a comprar e comercializar produtos juntas, para obter algum ganho com o aumento da quantidade dos negócios. Ele aponta a união de forças como um caminho natural na luta pela sobrevivência das pequenas cooperativas, a exemplo do que tem ocorrido em outros setores da economia como bancos, aviação, veículos, empresas de comunicações e outros. Mas adverte: para isso é preciso haver a profissionalização de todo o processo administrativo.
AdministraçãoPara o superintendente da OCB, o antigo modelo de escolha de um bom produtor, uma pessoa que tenha liderança entre os demais associados para ser o responsável pelo destino da cooperativa já não funciona mais. O bom produtor pode não ser um bom administrador. Com a globalização e o aumento da competitividade em escala mundial, a administração de qualquer tipo de negócio se tornou algo muito complexo. Temos que ter profissionais de mercado, de finanças, pessoas que tenham compreensão de bolsas de valores e uma visão empresarial do negócio, pois esses são fatores que vão garantir ou não a saúde financeira da cooperativa e a sua própria sobrevivência, argumenta.
O processo de fusão de pequenas cooperativas já começou. Ele diz que as negociações estão mais avançadas em Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. O processo de fusão começa de forma mais acelerada justamente nos estados pioneiros do cooperativismo, onde essa filosofia de unir associados ganhou maior espaço e mais força através dos anos, e coincidentente onde hoje está ocorrendo uma disputa mais acirrada pelo mercado com os grandes grupos multinacionais.
Um outro complicador provocado pelo livre comércio, principalmente nos Estados da região Sul, é a concorrência direta com o Mercosul. Está provado que o preço dos insumos - sementes, defensivos, fertilizantes e até peças de reposição de maquinários - na Argentina, Uruguai e Paraguai é bem inferior ao do Brasil. Isso faz com que as cooperativas tenham dificuldades de vender insumos para os seus associados. Como o custo de produção é inferior, incluindo aí menos impostos, transporte mais barato entre outros fatores, os produtos dos países vizinhos entram no mercado brasileiro com preço menor. Isso tem trazido problemas para os agricultores brasileiros. O caso concreto é o do arroz originário da Argentina que tanto tem prejudicado os rizicultores, principalmente do Rio Grande do Sul.
LegislaçãoO dirigente da OCB entende que a mudança na legislação é um instrumento prioritário para fortalecer o cooperativismo no Brasil. Ele argumenta que a lei 5.764, de 1971, precisa ser atualizada. A constituição de 88 garantiu a auto-gestão das cooperativas, retirando a tutela do Estado, mas não ofereceu uma regulamentação para possibilitar essa mudança. A legislação precisa ser definida claramente, pois não há como a doutrina cooperativista concorrer com esse capitalismo que vem sendo praticado pelo mercado mundial. A cooperativa não não visa lucro e por isso precisa de obedecer uma normatização diferenciada, reivindica.
Para Valdir Colatto, a OCB junto com as Organização das Cooperativas dos Estados tem atuado junto aos governos, dialogado com os políticos e com a classe econômica, para que os dirigentes possam conhecer e valorizar a importância do trabalho cooperativista. Ele exemplifica:as cooperativas geram 107 mil empregos diretos, mais do que o setor automobilístico. São empregos espalhados pelo País dentro de uma atividade que tem desbravado novas fronteiras de desenvolvimento, levado tecnologia e renda as regiões mais distantes, agrupando pequenas comunidades. Enquanto a informática trabalha com o virtual, nós apresentamos o resultado real, a produção que enriquece e muda a qualidade de vida. Agora, falta ao governo reconhecer todo esse trabalho e a sua importância social.
Dentro do cooperativismo brasileiro, o superintendente da OCB aponta o Paraná como uma espécie de modelo para o setor. Em termos de cooperativas agropecuárias estão entre as melhores do Brasil. Pela atuação, profissionalização e alto nível de gerenciamento técnico. As mudanças introduzidas no cooperatismo paranaense tem servido de modelo principalmente em auto-gestão. Não é por acaso que o Paraná tem a Coamo, a maior do Brasil, e outras boas cooperativas, elogia Colatto.





