DEDO DE PROSA -

Fruto em botão


Fruto em botão
Marco Jacobsen
 


Acontecem fatos na vida que podem nos trazer momentos de reflexão e aprendizado, desde que estejamos atentos para ver, ouvir ou sentir. Isso acontece, por exemplo, quando doamos coisas que já não nos servem, mas que podem ser de grande utilidade para outras pessoas. Depois do falecimento da mãe, eu e meus irmãos deixamos fechada a casa onde ela morava, porque no tempo de luto é muito difícil mexer nos pertences e objetos de alguém querido, muito mais daquela que nos gerou, criou e educou. Aos poucos fomos desapegando dos objetos, roupas, calçados, louças.


Demoramos mais no descarte do mobiliário, ficando um tanto com alguns filhos e outra parte foi destinada a uma família de refugiados vindos da Venezuela. Com o auxílio de dois simpáticos rapazes de uma igreja que presta ajuda àqueles que passam por essa triste situação, a família chegou ao local no horário marcado e eu puxei conversa com os pais e com a sua pequena filha, superando a dificuldade do idioma e a rapidez de suas falas. Desmontar e carregar móveis foram atividades em comum, rápidas e prazerosas, dando para perceber a felicidade deles em receber guarda-roupas, camas, colchões, mesas e cadeiras.




Mas o que houve em seguida foi bem divertido. No fim do serviço fomos ao quintal, onde existem pés de romã, amora, pitanga, guabiroba, acerola, maracujá, jabuticaba, mamão, banana, muitos deles plantados por mim. Ali, a pequena Izabel, se encontrava embaixo da jabuticabeira, perguntando encantada o que eram aquelas bolinhas pretas grudadas no caule. Receosa, indagou se os frutinhos eram venenosos. Eu disse que podia comer com casca e tudo, sem perigo, apenas que tomasse cuidado com a semente. Seus pais se entreolharam, dizendo que no lugar de onde vinham não havia jabuticaba e continuaram colhendo acerolas maduras do pé, chamando-as de “cereja das Antilhas”.


Aproveitei para contar que a jabuticabeira é originária da mata atlântica brasileira, conhecida desde o descobrimento, tendo ao longo do tempo se dispersado por outros países como Argentina, Paraguai e Bolívia. Disse que é também conhecida por Guapuru e a explicação mais plausível para o seu nome é a dos índios, que a chamavam de “iauoti-kaua”, se referindo a “fruto em botão”. As flores são brancas e nascem diretamente no caule, gerando os frutos, que passam de verde ao roxo. Depois, maduros, ficam escuros e brilhantes. Na natureza a jabuticaba serve de alimento para capivaras, porcos do mato, quatis, cutias, macacos, pássaros e outros bichos.


Na despedida, a nova família de Londrina foi embora com as doações e sacolas cheias de jabuticabas, acerolas e pitangas. Fiquei contente. Minha mãe também.


Dias depois, contei essa estória ao amigo Mirto, que é agricultor em Cambé, e lhe perguntei:


- Existe algo mais bonito do que o pé de jabuticaba cheio de flores?


Criado na roça, sábio, ele respondeu:


- Sim, um pé de jabuticaba carregado de frutos maduros, pra chupar de baciada debaixo da árvore, sem lavar. É só morder a fruta, ouvir um ploct e sentir o divino mel derretendo na boca.




Gerson Antonio Melatti, leitor da FOLHA.

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