Jota Oliveira
Em Marilena (80 quilômetros a noroeste de Paranavaí) uma vila rural está produzindo maracujá, começa a plantar moranguinho e outras espécies, que virão reforçar a renda do café adensado, obrigatório nesse programa de assentamentos desenvolvido pelo Governo do Estado. Ali o governador Jaime Lerner lançará quarta-feira, 7 de julho, o programa ‘‘Sócio da Vila’’, destinado a gerar empregos e renda para as famílias assentadas nas vilas.
A nova fase do programa ‘‘Vilas Rurais’’ dá prioridade à renda das famílias assentadas na primeira fase, que visava garantir moradia e área para plantio de subsistência. Agora, através das secretarias da Agricultura e da Habitação, o Governo assinará convênios com indústrias que comprarão produtos das vilas rurais. Para o lançamento do novo programa, foi escolhida como parceira do Estado uma indústria de polpa de frutas que vem estimulando a fruticultura na região e já compra maracujá da vila rural de Quatro Marcos, naquele município.
ParceriaA fruticultura é uma atividade recomendada para fortalecer a receita de pequenas propriedades, especialmente as familiares. Isto viabiliza os assentamentos de trabalhadores e as vilas rurais, onde têm sido introduzidas as espécies de maior procura no mercado, como moranguinho, maracujá, caju, abacaxi e acerola, no grupo das frutas anuais. O interesse pelo plantio de frutas deu origem à Frutex Indústria e Comércio, Importação e Exportação Ltda., dona da marca de polpas congeladas naturais Infrupar.
Embora nova, com apenas um ano e meio de vida, é a maior fábrica de polpa do Estado e a terceira do País. O gerente industrial, José Carlos Lara, e Alexandre Brizola, gerente financeiro e administrativo da empresa, salientam que se desenvolve ali uma parceria, um trabalho integrado em que a indústria fornece insumos, tecnologia, acompanhamento da lavoura e compra a produção. Além disso, em alguns casos, financia o custo de instalação e tratos culturais dos plantios. O financiamento é pago em produto mesmo, não em dinheiro equivalente a produto.
A Frutex pertence a um grupo de investidores de São Paulo, que em 1997 adquiriram a indústria e passaram a investir no negócio, ampliando seus contatos com pequenos agricultores daquele e de outros municípios paranaenses situados num raio de 300 km. A capacidade da indústria aumentou de 500 kg/dia para 20 t/hora, podendo industrializar 10 mil toneladas de polpa de onze tipos de sabores por ano.
Em Quatro Marcos, das 40 famílias que receberam terreno de 5 mil metros quadrados cada uma, 15 produzem maracujá. Na propriedade de Afonso Piscitelli Neto, de 38 anos, antigo porcenteiro de hortaliças em Marilena, sua mulher, dona Raimunda, duas filhas e um filho menores colhiam maracujá, no final de junho. Ela se dizia satisfeita na atividade nova.
Os Piscitelli têm 1.000 plantas de café adensado, em 1.000 metros quadrados; 20-25 pés de manga, 55 pés de goiaba, alguns pés de caju e horta. O maracujá, com sete meses, dá sua primeira colheita, e a família já tinha colhido 1.200 kg, em 1.200 metros quadrados e vendera a R$0,25 o kg (o preço varia de R$0,20 a R$0,25, conforme a qualidade das frutas, que ali são de primeira), para a Infrupar. Quando o moranguinho estiver produzindo, a família deverá ter renda mínima de R$1.000,00 por mês. Além disso, Afonso trabalha na Infrupar, onde é encarregado da produção. Pela chácara na Vila Rural, paga apenas R$18,00 por mês.
Perto dos Piscitelli, José Gonçalves, de 60 anos, tem plantações de maracujá (na primeira safra), moranguinho, milho, horta, café adensado, manga, acerola, coco-da-bahia e goiaba. Antes de ir morar na Vila Rural, ele era porcenteiro de café. ‘‘Agora, trabalho fora só quando sobra tempo, e porque ainda não dá pra viver’’, diz.
Como seus vizinhos, em breve José Gonçalves poderá viver apenas das frutas e do café. Porém, em alguns casos, o cafezal, que ainda não produziu, poderá ser substituído por frutíferas. Afonso Piscitelli, por exemplo, já pensa em aumentar sua área de maracujá, estendendo-a para onde está o café. É que o maracujá começa a produzir aos 4 meses e o café leva dois anos para começar a produzir.
Renda contínua‘‘Queremos uma renda contínua para o produtor’’, ressalta Lara, engenheiro-agrônomo especialista em frutas, que já trabalhou na Cica, no Instituto Tecnológico de Alimentos (Ital) e na Cutrale. Ele e Brizola afirmam que o solo e o clima da região favorecem a produção de frutas: as geadas são raras e a temperatura média anual, de 25 graus, é adequada à fruticultura.
Para garantir renda contínua, o produtor precisa ter sempre alguma fruteira produzindo: terminou em junho a safra de maracujá, que vai de outubro a junho, mas agora em julho começa a safra de morango. Depois, na primavera-verão, todas as frutas entrarão no mercado. Por isso, a empresa espera rodar 24 horas, de outubro a fevereiro, enquanto os fornecedores têm renda contínua.
Além dos produtores integrados, a Infrupar está trabalhando com outros, em 13 municípios. Somente na linha de abacaxi, que está sendo montada, ela produzirá 10 toneladas/h, enquanto das demais frutas esmaga 5 toneladas ao dia - toda a polpa pode ser utilizada como ração animal. Num raio de 30 a 50 km, no máximo, a indústria desenvolve um trabalho mais com acerola e caju, que não aguentam transporte. Essa medida (matéria-prima próxima da fábrica) serve também para baratear o frete.
Na região de Marilena predominam os microprodutores, como nas vilas rurais. onde é dada ênfase ao morango e ao maracujá. Numa Vila Rural o produtor pode ter 200 mudas (este é o módulo estabelecido pela Infrupar, para que o trabalho seja familiar), com R$400,00 de investimento, a pagar com frutas. Na mesma propriedade, de 5 mil metros quadrados, ele pode ter ainda 10.000 mudas de morango (também o módulo), em que investe por volta de R$2.500,00. No próximo ano a indústria começará a trazer mudas chilenas, que produzem até 2 kg de moranguinho por planta e dão frutas de qualidade superior à das nacionais. A produtividade aqui varia de 600 a 800 kg/planta.
Além do trabalho nas vilas rurais, a Infrupar estimula a fruticultura em assentamentos, como em Querência do Norte (maracujá), onde é cultivado o maracujá, que dá retorno rápido e permite ao lavrador investir depois em outras culturas.
A Infrupar já tem contrato com 14 vilas rurais (sediadas, entre outros, nos municípios de Marilena, Querência do Norte, Goioerê, Loanda, Nova Londrina, Moreira Salles, Iretama, Mariluz, Paraíso do Norte, São Jorge do Patrocínio, e está para assinar contratos de parceria com produtores de mais 15 vilas rurais.Áreas pequenas como os lotes das vilas rurais podem ser auto-suficientes graças ao cultivo de espécies frutíferas
Dorico da SilvaRaimunda e sua filha Paula, na colheita do maracujáHigieneLinha de produção, onde as frutas passam por limpeza e seleção, antes de serem esmagadasO suco, natural, sem aditivos, chega ao tambor no qual será enviado ao mercado, após resfriamentoAlexandre Brizola e José Carlos Lara, na indústria em MarilenaAfonso Pisticelli Neto, lavrador e industriário

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