Vânia Casado
A tecnologia diminui custos; o associativismo tem força para influenciar politicamente no Congresso e nos Estados. Esse foi um dos alertas que os produtores dos Estados Unidos fizeram à comitiva de produtores paranaenses que recentemente estiveram naquele país, conhecendo o modelo de produção. ‘‘Se os produtores brasileiros quiserem competir no mercado internacional, terão que se fortalecer em associações, para influenciar as decisões de governo a favor da agricultura’’, avisou Jorge Stover, produtor de cerejas no Estado do Michigan e membro do American Farm Bureau Federation (Federação Norte-Americana de Agricultura).
Como ser competitivosA viagem aos Estados Unidos foi organizada pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), que pretende coordenar mais três viagens técnicas àquele país até o final do ano. O objetivo é mostrar como estão produzindo os produtores concorrentes, como eles se organizam e o que fazem para se tornarem competitivos no mercado internacional.
Os Estados Unidos detêm mais de 1/4 da produção econômica mundial e agropecuária responde por 2% do PIB norte-americano, calculado em R$7,3 trilhões, maior do que a soma dos PIBs da Alemanha e do Japão. Em 1998, a balança comercial da agropecuária norte-americana teve um superávit de US$20 bilhões, resultado de exportações de US$70 bilhões e importações de US$50 bilhões. Os dois principais mercados para as exportações agropecuárias dos EUA são a Ásia (41%) e América Latina (15%).
A grande vantagem competitiva da produção agrícola nos EUA é a distribuição da produção. Os principais centros de escoamento da produção são servidos por uma completa infra-estrutura de ferrovias, hidrovias e rodovias que reduzem o custo do transporte. O transporte por ferrovia sai em torno de US$8 a tonelada e por hidrovia, US$7 a tonelada. O transporte rodoviário é feito em pequenas extensões, geralmente entre a propriedade e o terminal ferroviário ou hidroviário mais próximo. O custo está avaliado entre US$0,10 e US$0,14 por bushell, para o trajeto de 50 milhas (35 quilômetros).
Nos últimos 50 anos também houve forte concentração do número de propriedades rurais, que caiu de 6,8 milhões para 2 milhões. Desse total, de 15% a 20% detém 80% da produção e área cultivada. O restante da produção (20%) é oriundo de 80% dos produtores, que são pequenos. Esses só conseguem sobreviver no meio rural, porque têm facilidade de conseguir emprego para eles e para a família no meio urbano. Eles têm acesso à educação, que lhes garante uma profissão, usufruem das facilidades da infra-estrutura de transporte e dos meios de comunicação, que permitem o acesso fácil aos pontos de trabalho. A vantagem na região do Meio-Oeste Americano, onde a comitiva de produtores foi visitar é a ausência do desemprego. O Estado de Illinois, por exemplo, se destaca no beneficiamento dos produtos agropecuários. Existem aproximadamente 1.400 empresas de alimentos situadas na região.
Já nas grandes propriedades, os produtores recorrem à alta tecnologia das grandes máquinas plantadeiras e colheitadeiras, para elevar a produtividade. Mas um dos equipamentos de maior retorno financieiro foi o GPS (Geoprocessamento por Satélite), que corrige as deficiências do solo no momento do plantio. O equipamento conseguiu cortar pela metade a aplicação de calcário nas lavouras no Estado de Indiana.
Mas é no associativismo que o produtor rural norte-americano continua o trabalho iniciado na lavoura. O Farm Bureau se destaca na atuação política, disse o produtor Jorge Stover. Mas a associação tem outras atribuições, como atendimento social, seguro agrícola, seguro desemprego e contra acidentes no trabalho. A Federação atua com grupos de lobistas em tempo integral, nos Estados e no Congresso Americano. Para se ter uma idéia dessa influência, o Farm Bureau do Estado de Michigan conseguiu aprovar uma lei estadual, que dá ao produtor direito de comercializar sua produção por um preço justo. Se isso não acontecer, ele pode acionar a legislação contra atacadistas ou atravessadores que estiverem forçando uma queda de preços no mercado para conseguir vantagens.
Outro trabalho dos lobistas é a influência política em tempo de eleição. Muitas vezes o Farm Bureau entra para decidir uma campanha, daí a importância que a entidade assume nos meios políticos. O fortalecimento das associações de produtores decorre da conscientização que produtores e a comunidade em geral tem do setor agrícola. Uma das associações fortes da região do cinturão-do-milho (Corn Belt), visitada pela comitiva de produtores paranaenses, foi o Indiana Farm Bureau. A entidade tem 272.000 filiados, mas somente 72.000 são produtores rurais. Os demais são associados, por entender que de alguma forma a agricultura é importante para o desenvolvimento econômico da região onde vivem.
No Illinois Farm Bureau, uma das preocupações é o mercado de commodities agrícolas, que está em baixa, principalmente de soja e suínos. A entidade está encorajando o governo a ‘‘ quebrar’’ as barreiras comerciais existentes no mundo, para que os produtores tenham acesso a novos mercados mundiais.
* A reporter Vânia Casado viajou aos Estados Unidos a convite da Federação da Agricultura do Paraná (Faep).

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