Fonte: IBGE e SEAB
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sexta-feira, 12 de outubro de 2001
Carolina Avansini<br> De Londrina 
Com o início do plantio da safra de verão, devem aumentar os casos de contaminação por agrotóxicos no Paraná. A informação é de Conceição Turini, coordenadora do Centro de Controle de Intoxicações do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná (HU), em Londrina. Segundo ela, a instituição registrou 155 intoxicações de janeiro a setembro deste ano.
Desse total, 55 foram causadas por acidentes, 65 por tentativas de suicídio e 35 por exposição profissional. As pessoas atendidas têm em média 27 anos de idade. Ano passado, o volume de notificações entre janeiro e dezembro foi 208, sendo 64 por acidente, 70 por exposição profissional e 69 tentativas de suicídios, com média de 25 anos. Comparando os dois períodos, observa-se que a tendência, no final do ano, é aumentar o número de contaminações no trabalho.
De acordo com Conceição, os dados registrados pelo serviço não refletem a realidade. ''Muitos trabalhadores rurais deixam de procurar atendimento médico porque apresentam problemas mais leves e crônicos, decorrentes de anos de contato. Os sintomas também são confundidos com outras doenças, dificultando o diagnóstico por parte de profissionais da área de saúde. O número de pessoas atinigidas deve ser muito maior'', ressaltou.
Resignação Para o agricultor Santo Marques de Jesus, do município de Cambé (11 km de Londrina) as intoxicações com agrotóxicos já foram muito mais graves do que hoje. Há 30 anos, quando o veneno BHC era utilizado nas lavouras de café, Santo Marques teve uma intoxicação que provocou coma e quase o levou à morte. Apesar disso, hoje com 60 anos, continua a utilizar agrotóxicos nas lavouras de trigo, soja e milho de sua propriedade. ''Sou eu que preparo as misturas que são aplicadas pelo meu filho. E mesmo usando máscara, quando estou misturando sinto a saliva engrossar e muita dor de cabeça'', diz o agricultor. Ele comenta ainda que prefere ele mesmo mexer com o veneno para poupar o filho. E parece resignado à sua sorte: ''não tem outro jeito, temos que trabalhar, e aqui na roça, quase todo mundo já teve algum problema com veneno'', afirmou. Muitos produtores que sofrem contaminações com agrotóxicos, continuam a utilizá-lo e não percebem que hoje já existem outras alternativas como o controle natural ou a agricultura orgânica.
Preocupações Segundo Conceição Turini, as contaminações decorrentes do trabalho no campo são as mais preocupantes. ''Os agricultores nem sempre têm acesso às informações sobre os riscos que esses produtos oferecem'', revelou. O alto número de notificações por tentativa de suicídio também chama a atenção. ''Significa que o acesso aos agrotóxicos é facilitado'', analisou.
Conceição ensinou que para evitar problemas, os produtores rurais devem utilizar agrotóxicos somente sob orientação de um engenheiro agrônomo. ''Ele deve aplicar o produto nas quantidades recomendadas e usar equipamento de proteção. O contato com a pele oferece os maiores riscos'', ressaltou.
Outra recomendação importante diz respeito às embalagens, que devem ser lavadas três vezes, furadas e colocadas em um depósito específico para armazenagem, fechado e ventilado, para evitar a reutilização. Após esse processo, os recipientes devem ser entregues em uma das 14 centrais de recebimento de embalagens usadas existentes no Paraná. Antes de transportar, é preciso preencher a nota do produtor e o cadastro das embalagens.
No Paraná De acordo com estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em convênio com a Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab), foram registrados 29.250 casos de intoxicação no Estado, na safra 1998/1999. O Paraná é o segundo do País em volume de vendas de agrotóxicos, tendo movimentado U$361,1 milhões em 1999. A pesquisa também revelou que no período, a maioria das embalagens vazias foram guardadas na propriedade e que o uso de equipamentos de proteção pelos agricultores ainda é baixo.
Entre os produtos utilizados, os de maior toxicidade à saúde humana foram aplicados na cultura do algodão. Com uma produção de 107 mil toneladas, o Paraná contribui com 7,12% da produção nacional do produto. Entre os agrotóxicos utilizados, os herbicidas foram os mais empregados, seguidos dos inseticidas.


