Fome, ainda o maior desafio
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de novembro de 1998
Jota Oliveira 
No oitavo capítulo do seu livro, Economia Agrícola - Princípios básicos e aplicações, o professor Judas Tadeu Grassi Mendes, Ph.D. em Economia Rural e Agribusiness, pela Ohio State University, considera o desequilíbrio entre a oferta e a demanda de alimentos um grande problema mundial. Ele observa que a fome no mundo existe, em grau muito acentuado, nos países em desenvolvimento.
O principal desafio, analisa, está mais na distribuição da oferta do que no nível de produção, uma vez que a oferta global, que é aparentemente suficiente para atender as necessidades da população mundial, está fortemente concentrada em poucos países desenvolvidos.
Subdesenvolvimento e fome Nos países menos desenvolvidos, a produção de alimentos não é suficiente para atender as necesidades de suas populações e por isso 79% dos habitantes do Planeta não têm renda suficiente para adquirir alimentos, constata o economista.
No Brasil, a produção de alimentos para o mercado interno cresceu, segundo Grassi Mendes, 79,6%, comparando-se a média do período 1965-1970 com a média do período 1995-97. Aquele aumento apenas acompanhou o crescimento populacional de 80,4%. O economista ressalva que nos mesmos períodos a produção de alimentos de origem animal (carnes bovina, suína e de frango; leite e ovos) cresceu mais do que os produtos de origem vegetal (arroz, batata-inglesa, feijão, mandioca e trigo). Enquanto aqueles tiveram incremento de 216%, esses expandiram-se apenas 37,5%.
Conforme a análise, a diferença favorável ao segmento animais seria um indicador favorável, porque a maior procura de produtos de origem animal, mais protéicos, do que de alimentos vegetais, mais calóricos, indica um crescimento da renda - ...à medida que a renda cresce, tende a haver um incremento relativamente maior no consumo de produtos como carnes, leite e derivados e ovos...
Grassi Mendes lembra que, no período 1965-70, os produtos de origem vegetal representavam 76,5% da oferta total de alimentos no Brasil, contra 23,5% da oferta de alimentos de origem animal. A oferta dos primeiros caiu para 58,5% em 95 e a participação de produtos de origem animal subiu para 41,4%. Nos Estados Unidos, a participação de produtos de origem animal na oferta global interna de alimentos é maior do que a oferta dos produtos de origem vegetal. O economista acredita que o Brasil caminha nessa direção.
O melhor caminhoApesar da queda de produção de alguns produtos (algodão, arroz, feijão, milho e trigo - principalmente) que o Brasil passou a importar regularmente e em quantidades crescentes, a produção agrícola do País tem aumentado. Judas Tadeu Grassi Mendes salienta que essa expansão, observada nos anos 70 até meados da década de 80, resultou quase exclusivamente da incorporação de novas áreas no processo produtivo, uma vez que os ganhos em produtividade foram pouco expressivos naquele período.
Pode-se dizer - comenta Grassi Mendes - que naquela época houve apenas crescimento horizontal da agricultura. Para ele, dois fatores explicam por que a produtividade não teve um desempenho melhor: 1 - a inadequada conservação dos solos, e 2 a utilização de tecnologia não apropriada.
Se uma agricultura cresce apenas devido à expansão da área, continua, os custos médios de produção crescem, mesmo que os preços dos fastores sejam mantidos constantes. Judas sugere: A tecnologia de custo médio decrescente de produção é o melhor caminho para elevar a rentabilidade da atividade agrícola sem necessariamente provocar aumentos no custo de vida.
Nos últimos dez anos notou-se essa tendência. o autor de Economia Agrícola... lembra que nesse período o aumento daa produção agrícola brasileira decoreu exclusivamente da elevação da produtividade da terra, pois a área cultivada está estagnada e em alguns casos até houve diminuição. Então, anota Grassi Mendes, nestes últimos dez anos tem havido crescimento vertical da agricultura brasileira, embora os níveis de produtividade da maioria dos produtos agrícolas ainda sejam muito baixos.
Fatores negativosO economista Judas Tadeu Grassi Mendes, que foi presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), professor titular da Universidade Federal do Paraná e é diretor da da FAE-Economia e do Pós-Graduação/CDE, entre outras atividades, aponta três fenômenos que afetam negativamente a produção nacional de grãos:
a - a taxa de ocupação das áreas de lavouras, no Brasil, ainda é muito baixa (apenas um décimo da área dos estabelecimentos rurais é cultivado com grãos, contra um quarto nos Estados Unidos); b - a produtividde agrícola no País é muito baixa (por exemplo, 3 mil quilos por hectare de milho, na média nacional, contra quase 8 mil kg/ha nos Estados Unidos); c - forte concentração fundiária (um por cento dos estabelecimentos rurais brasileiros controlam metade das terras agrícolas do País - um terço nos EUA).
Conclusão: A produção agrícola brasileira é pequena relativamente ao potencial disponível. Grassi Mendes acredita que o crescimento dessa produção só ocorrerá a taxas elevadas, se os grandes proprietários, além de decidirem cultivar suas terras, fizerem investimentos em tecnologia para o aumento da produtividade.
Serviço:O livro Economia Agrícola - Princípios básicos e aplicações não está disponível nas livrarias. Só pode ser adquirido na Editora ZNT Ltda., em Curitiba, pelo telefone/fax (041) 262-5824.


