Da conserva caseira feita pela avó aos molhos gourmets de alto valor agregado produzido por grandes marcas da indústria de alimentos. O olhar sobre a pimenta – um ingrediente tão arraigado na cultura brasileira – mudou de status nos últimos anos. Pelo lado do produtor, a aposta em novas variedades e técnicas de manejo, enquanto no comércio o surgimento de produtos diferenciados atendendo exigências de um mercado cada vez mais amplo e diferenciado.

Apesar da complexidade em medir o volume de produção, a Embrapa Hortaliças (DF) aponta que o mercado para pimentas é bem segmentado e diverso, geralmente dividido no consumo in natura de pequenas porções e as pimentas processadas, que incluem molhos, conservas, flocos desidratados e pó, além das atuais geleias e até doces. Diferentemente do nordeste, os estados do Sul são provavelmente os que menos consomem o produto, mas isso tem mudado devido a essa gama enorme de opções que vão muito além da conserva. A FOLHA Rural desta semana foi atrás de produtores e comerciantes paranaenses que apostam na pimenta – cada um da sua forma – como um negócio lucrativo e diferenciado.

Imagem ilustrativa da imagem FOGO NA BOCA: Cambeense produz as pimentas mais fortes do mundo
| Foto: Ricardo Chicarelli

Para ilustrar esse novo cenário, a reportagem encontrou um produtor cambeense que mostra bem os novos caminhos da pimenta no País. Carlos Daniel Pujol Bazzo viajou o mundo, conheceu novos sabores e temperos, e a partir dessa experiência, há seis anos, planta em Marília, no interior de São Paulo, as pimentas mais fortes do mundo. Ele criou então a Power Pepper, empresa que trabalha com molhos diversos e de pimenta pura, ou seja, o produtor atua em todas as fases da cadeia.

  Carlos Daniel Pujol Bazzo viajou o mundo, conheceu novos sabores e temperos e encontrou na pimenta uma oportunidade
Carlos Daniel Pujol Bazzo viajou o mundo, conheceu novos sabores e temperos e encontrou na pimenta uma oportunidade | Foto: Gustavo Carneiro

Formado em turismo e professor de inglês, Bazzo hoje divide sua vida profissional entre as aulas e a produção e comercialização de pimentas. Depois de trabalhar num cruzeiro, voltou e viu nas pimentas uma oportunidade de negócio. A família possui terras em Marília, que tem ambiente propício para a produção, com terra mais arenosa e sol forte. Estudou sobre o assunto, começou com cerca de 150 pés e hoje tem entre 12 mil e 15 mil pés pés numa área de 15 mil metros quadrados. “Percebi que aqui em Londrina as pimentas mais fortes do mundo eram vendidas de R$ 140 a R$ 160 o quilo. Minha ideia inicial era comprar pra revender, mas comecei a estudar, adquiri maquinário de um pessoal que estava parando e apostei na atividade.”

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| Foto: Gina Mardones

Daí surgiu a ideia de plantar apenas pimentas com alto grau de ardência, como Bhut Jolokia, da Índia, Trinidad Scorpion, de Trinidad e Tobago e Carolina Reaper, dos Estados Unidos. Todas em algum momento já foram consideradas “a mais forte do mundo”. “Eu planto apenas as extremamente fortes, porque as pimentas tem polinização cruzada, então se você planta uma forte e uma fraca, por exemplo, a forte pode ficar menos forte e a fraca menos fraca. As pimentas que plantei são de clima desértico, que precisam de sol, pouca água e com clima que esfria pouco. Em janeiro deste ano tive grandes perdas com a chuva que aconteceu em Marília. Se fosse plantar aqui na região, elas teriam que estar dentro de estufa e com uma terra mais arenosa, misturada com a terra roxa”, explica.

Ele também relata que no manejo é recomendado plantar a cada dois anos e que a média produtiva é de um quilo por mês por pé. Mas ele relata que como trabalha com pimentas muito fortes, acaba plantando anualmente porque pés grandes atrapalham o manejo, inclusive no contato com a pele do trabalhador. “Com isso também acho que produzo mais e o fruto fica bem vistoso. O trabalho com o solo também é bem importante.”

Como ao longo dos anos a produção ganhou volume, Bazzo partiu para a agroindustrialização das pimentas, aumentando o valor agregado e comercializando com mais facilidade. Isso inclui molhos mais simples, como chimichurri e barbecue, até os de pimenta pura e extremamente apimentados. Ele também realiza eventos gourmets e até concursos de pimenta para ver quem encara toda essa ardência. “Já são seis anos trabalhando num mercado gigante e que não vai parar de crescer tão cedo. Hoje nos eventos gourmets precisamos procurar espaço nas prateleiras devido ao número de produtos. A minha grande diferença é que meu preço é bem competitivo e faço toda a cadeia de produção.”

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