Focos da doença na Europa preocupam
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sexta-feira, 09 de março de 2001
Cláudia Barberato De Londrina 
A carne brasileira exportada passa por diversos processos industriais que garantem a qualidade do produto e evitam que o alimento carregue o vírus da aftosa ou de outras doenças. A afirmação é do professor do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodutiva Animal, da Unesp, de Jaboticabal (SP), Luiz Francisco Prata.
Segundo Luiz Prata a hipótese levantada recentemente pelas autoridades inglesas de que a carne brasileira vendida para a Europa, especialmente para a Inglaterra, seria a responsável pelo aparecimento da febre aftosa no rebanho bovino daquele país, é altamente improvável e cientificamente remota.
A contaminação, segundo ele, ocorre principalmente entre animais vivos, no contato de um sadio com um animal portador; ou no contato com vísceras e ossos. No caso de carnes, o problema estaria no produto clandestino, sem inspeção, que não é o caso da carne brasileira que é exportada para a Europa.
Preocupação Uma das preocupações dos países em controlar os focos da doença se deve ao fato de que a aftosa é considerada parâmetro para o controle das demais doenças, essas sim transmissíveis ao homem. Outra preocupação é que a doença pode rapidamente dizimar um rebanho. Essa é a razão que leva os países a combater a doença de forma tão radical.
Ao contrário de algumas doenças que atingem bovinos, como tuberculose, brucelose, raiva, entre outras, e que são importantes como zoonoses, transmissíveis ao homem, a aftosa não é problemática ao ser humano, mesmo estando listada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo Luiz Prata,
Controle de qualidade Para exportar o Brasil tem que cumprir protocolos e exigências sanitárias internacionais. Além da desossa da carne, é feita a maturação controlada.
Depois do abate a carne fica frigorificada fazendo com que o pH do músculo caia para um valor inferior a 6. Quando a carne atingir esse pH, há garantia científica que o vírus não sobreviverá. Com um pH abaixo de 6 o vírus degenerga e se desintegra. Toda carne exportada in natura, além da desossa, passa por essa maturação controlada. O controle de temperatura e do pH de todas as carnes com vistas a exportação é feito para garantir a sanidade do produto, garante Luiz Prata.
Mercado a conquistar Durante muito tempo, segundo Prata, o Brasil só exportou carne enlatada e esterilizada e não havia problema. Para os EUA até hoje funciona assim. A própria União Européia comprou carne enlatada do Brasil durante muito tempo. Depois de comprovadas essas medidas de segurança para a carne vendida in natura a Europa passou a importar carne congelada.
A União Européia é hoje um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Mesmo assim, os pecuaristas brasileiros, segundo Luiz Prata, não devem ter a ilusão de que os europeus, mesmo entre parceiros, ou outros países, não colocarão barreiras ao produto brasileiro. As barreiras, mesmo sanitárias, são sempre movidas por interesses momentâneos, transitórios. Ao eliminar certas barreiras não significa que o trânsito será sempre livre.
Rastreamento Para provar que a carne brasileira foi a responsável pela volta do vírus da aftosa a Inglaterra, segundo Luiz Prata, será necessário fazer um rastreamento. Isso é possível, mas leva tempo e dinheiro. Os ingleses vão gastar milhões para contornar o problema.
Segundo Prata, o vírus pode ter entrado na Inglaterra por outros meios que não seja os oficiais. Num mundo globalizado, de trocas, idas e vindas para todo o lado, nem sempre tudo que entra ou sai de um País é oficial ou percebido na alfândega, lembra. O fluxo migratório na Inglaterra, por exemplo, com países da África ou da Ásia, onde existe o vírus da aftosa é muito grande.
No ambiente O vírus da aftosa, por exemplo, pode ser transmitido pelo ar, pela sujeira, pela poeira, pela troca tão intensa entre os países, pelos aviões, navios, e outros. A carne que é vendida tem todo um controle,afirma Prata.
As enfermidades infecciosas, de acordo com Prata, são cíclicas, por isso fica difícil falar de erradicação com doenças provocadas por bactérias ou vírus. É preciso estar permanentemente atento.
O mundo é um ecossistema do qual ainda conhecemos pouco. Como o vírus é uma partícula de tamanho tão ínfimo, seja no solo ou no ar, falar e afirmar que ele não esteja presente é arriscado. Um país que investiu em erradicação controlou apenas os animais suscetíveis e não o vírus no ambiente.
Nos animais A aftosa no animal, principalmente bovinos e suínos, provoca um quadro viral agudo com febre, aftas em mucosas, especialmente na boca, que são muito doloridas.
Por causa dessas aftas o animal pára de se alimentar, perde peso e o quadro pode se agravar por infecções oportunistas, causadas pela queda de resistência.
O animal vai ficar doente e se não morrer em função desse quadro vai ser sempre mais tardio em seu desenvolvimento, demorando a cumprir sua etapa produtiva e causando prejuízos.
Na sequência, essas aftas ou lesões aparecem ao redor do casco e entre as unhas. Essas lesões estouram e se transformam em feridas abertas. O animal claudica (manca), sangra, às vezes nem se levanta mais.
Vacinação O controle no Brasil se dá pela vacinação. Num país de grande extensão territorial e fronteiras secas com vários países, fica mais difícil controlar a doença. Em muitas localidades há ruminantes silvestres, prováveis portadores do vírus, como alces, veados, catetos, entre outros, convivendo com animais nas pastagens.
Na Inglaterra, por exemplo, que é uma ilha, há possibilidade de erradicar eliminando os animais suscetíveis e controlando entrada e saída. No passado a erradicação da enfermidade foi feita com a morte dos animais suscetíveis. Mas medidas como essa demandam dinheiro para indenizar os produtores.


