Floricultura estima queda de 80% nas vendas devido à pandemia

Atividade foi profundamente afetada pelo fechamento temporário de pontos de venda, baixa circulação de pessoas e cancelamento de eventos. Esperança agora é com o Dia dos Namorados

Mie Francine Chiba - Grupo Folha
Mie Francine Chiba - Grupo Folha


O impedimento da circulação de pessoas como forma de combate ao novo coronavírus fez com que o setor de floricultura fosse profundamente afetado. Conforme um Informe Técnico do Deral (Departamento de Economia Rural), da Seab (Secretaria da Agricultura e do Abastecimento), a redução do consumo de flores nesse período de pandemia é estimada em até 80% em um mercado estimado em R$ 8,7 bilhões. O fechamento de pontos de venda e o cancelamento de eventos agravou ainda mais a situação, diz a nota.



No Paraná, a floricultura é explorada por 871 agricultores, que geraram um VBP (Valor Bruto de Produção) de R$ 131,7 milhões em 2018
No Paraná, a floricultura é explorada por 871 agricultores, que geraram um VBP (Valor Bruto de Produção) de R$ 131,7 milhões em 2018 | iStock
 

 

A estimativa do Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) é que até o final do abril o prejuízo do setor chegaria a R$ 1 bilhão no campo, transporte, atacado e varejo. Segundo o Instituto, o país é o oitavo maior produtor de plantas ornamentais do mundo, com o cultivo de cerca de 15,6 mil hectares.




No Paraná, a floricultura é explorada por 871 agricultores, que geraram um VBP (Valor Bruto de Produção) de R$ 131,7 milhões em 2018 – 0,15% do Valor Bruto de Produção total do Estado. “Não é significativo, mas nos municípios onde tem, a floricultura é importante para a atividade rural”, diz Paulo Andrade, engenheiro agrônomo do Deral. O Estado é grande produtor de gramado. Londrina e Maringá, segundo o engenheiro, respondem por cerca de um terço da produção da floricultura do Estado.


O cancelamento de eventos e reuniões fez com que as vendas de rosas de Anali de Oliveira Américo, de Araruna (centro-oeste), tivessem uma queda de cerca de 70%. “A gente atende templos, igrejas, eventos, formaturas, casamentos, e agora com a pandemia está tudo parado. Floriculturas a gente também atende, mas nosso forte são eventos.”


O baque só não foi tão grande porque ela e o marido também cultivam milho e soja em sua propriedade. “Na agricultura não pode ter só um tipo de atividade. Tem que estar sempre trabalhando com dois, três tipos de cultura, senão não sobrevive.”


No município de Uniflor (centro-norte), a venda de flores da Agro-Flores Uniflor caiu cerca de 30% com a pandemia, calcula Luis Carlos da Silva, proprietário. Os produtos da empresa de Silva são vendidos principalmente em floriculturas e supermercados. No Dia dos Namorados, o proprietário espera que as vendas reajam. “Achamos que vai dar uma reagida, mas pouco. No Dia das Mães já perdemos bastante, vamos ver como vai ser no Dia das Namorados. Mas não vai ser igual aos outros anos. Não temos perspectiva, por enquanto está devagar.”


O que resta fazer, em um momento em que o setor foi pego de surpresa, é diminuir despesas e reduzir a produção. Dos três hectares de flores cultivados por Silva, apenas um está ocupado. Por outro lado, é preciso manter a produção para que não falte produtos caso o mercado retome.


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Floricultura estima queda de 80% nas vendas devido à pandemia
Divulgação
 


Dia dos Namorados

O Dia dos Namorados é uma data considerada importante para a atividade de floricultura, e responde por 4% das vendas de flores.  


A venda de flores no Dia das Mães, que foi comemorado no último dia 10 de março e é considerada a data mais importante para a floricultura, ajudou a minimizar as quedas expressivas sofridas pelos produtores de flores desde o início da pandemia.


Nas Ceasas (Centrais de Abastecimento) do Paraná, foram comercializadas 32,3 toneladas de flores de corte e 19,1 toneladas de flores em vaso em março. Em abril, no entanto, os números caíram para 6,5 e 3,9 toneladas, respectivamente, uma queda de 80%. Em maio, em função do Dia das Mães, foram vendidas 23 toneladas de flores de corte e 19 toneladas de flores de vaso, recuperando parte da queda do mês anterior.


No Dia dos Namorados, a ser comemorado no  dia 12 de junho, também há expectativa de recuperação. “No Dia das Mães houve um aquecimento, minimizando a queda. No Dia dos Namorados pode ter um repique, porque o mercado está se rearranjando”, pontua Andrade.


Para Andrade, do Deral, os supermercados e hipermercados têm se mostrado parceiros da floricultura em tempos de Covid-19. Estima-se que em 2000 o consumo de flores no Brasil era de R$ 10 ao ano por habitante, e cresceu para R$ 25 em torno de 2014.


Em parceria com a Abras (Associação Brasileira de Supermercados), o Ibraflor lançou a campanha “O Poder das Flores e das Plantas – A Flor é o Alimento para a Alma”, em cerca de 2 mil floriculturas presentes em redes de supermercados do País, para estimular o consumo de flores e alavancar os negócios em algumas das datas mais importantes para o setor, como o Dia das Mães.


Flores nas redes sociais e  no autoatendimento


Em muitas propriedades que cultivam flores, o impacto da pandemia de Covid-19 foi tão grande que alguns produtores pensaram em desistir do negócio. Mas com criatividade, eles insistem e tentam dar a volta por cima. 

Marice Moretti Kassies é engenheira agrônoma e sempre trabalhou com grandes culturas, mas em novembro do ano passado decidiu largar a soja para plantar crisântemos e margaridas na própria propriedade, em Castrolanda, na cidade de Castro. A colheita nos 2.500 m² de estufas começou em abril, mas o que ela não contava é que seria logo após à chegada da pandemia da Covid-19 ao Brasil. “Na primeira semana foi muito difícil. Eu pensei em parar, mas mesmo assim decidi insistir porque acredito que as flores podem ter importância nesse momento”, diz. 

De acordo com o Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), em toda a cadeia, o valor calculado que o setor deixou de faturar apenas nas duas primeiras semanas pós-coronavírus no país soma R$ 297,7 milhões. Até o início de maio, a estimativa era que o setor deixaria de vender R$ 1,364 bilhão.

E a crise não escolhe produtor grande, pequeno, novo ou antigo na área. A cunhada de Marice, Olga Kassies, é produtora de gypsophila, o conhecido mosquitinho, há mais de 20 anos. Em sua propriedade, a produção já chega a 1 hectare, com mais de 5 mil metros quadrados de estufas. Mais recentemente a plantação de mosquitinho ganhou a companhia da boca de leão. E é essa a espécie que mais tem sofrido com a pandemia. “A gypsophila ainda consigo fornecer para floriculturas que colocam em buquês, mas a boca de leão é mais complicada porque é usada basicamente em casamentos e formaturas que estão completamente suspensos”, lamenta.

Olga precisou usar a criatividade e a herança holandesa para manter a atividade. “No Brasil, as pessoas não têm o costume de colocar flores em casa. Mas isso é muito comum na Europa, então decidi arriscar e colocar o produto com preço de atacado direto para o consumidor”, conta. Ela usou um sistema europeu de colocar o arranjo pronto, em formato de autoatendimento, em que a própria pessoa pega e paga. As flores são deixadas em um posto de gasolina e um supermercado da região.

Para o vice-presidente da Associação Cultural Brasil Holanda, Albert Kuipers, o perfil do povo holandês sempre foi de muita dedicação e resiliência. “Os costumes simples e práticos são replicados pelos descendentes que chegam ao Brasil. E assim as famílias buscam novas formas de enfrentar a dificuldade”, argumenta.

Ainda nos Campos Gerais, em Arapoti, Frederika Hoogerheide planta oito espécies de flores nos 7.200 m² de estufas. Ela conta que a demanda caiu para 1/3 do que costumava vender antes da pandemia. A mais afetada é o crisântemo. “Além dos cancelamentos dos eventos, as funerárias da cidade adotaram novas normas, com velórios mais curtos, e acabamos muito afetados”, diz.

Ela conta que as flores que não tem conseguido vender são guardadas numa câmara fria para que possam durar mais tempo. A rotina também segue na propriedade da Olga. Mesmo sem vender toda a produção, a colheita é mantida três vezes por semana. “Precisamos arriscar porque preciso garantir que terei o produto quando o mercado reaquecer”, explica. 

A esperança e a criatividade também são as estratégias da Marice. “Vamos reforçar nossas redes sociais e pretendo mostrar como é o dia a dia de uma produtora de flores para que as pessoas possam conhecer e chegarmos em outros públicos”, planeja.

De acordo com o Ibraflor, no Brasil, o setor movimenta R$ 8,67 bilhões em toda cadeia, gera 210.000 empregos diretos e mais de 800.000 indiretos. No Paraná, assim como é o caso da Frederika, da Olga e da Marice, a produção de flores cresceu nos últimos anos com o investimento de pequenos produtores familiares. Elas dividem a propriedade com o cultivo de outras culturas e criações, como batata, suínos e gado. Diversificação que também tem dado o apoio para que as famílias consigam manter as tradições e a sobrevivência. (Reportagem Local)

 


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