Morretes - No início de maio, dois agricultores de Morretes, no Litoral do estado, abriram os portões de suas terras, dois lotes da Gleba Pantanal, um assentamento do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), de cerca de 2 alqueires cada um, para começar ali um sistema de plantio diferente do tradicional. Ao invés de reservar áreas específicas do terreno para cada espécie, como verduras e legumes, mandioca, banana e pés de limão e tangerina, por exemplo, todas estas plantas foram plantadas juntas, em distâncias e espaços cuidadosamente planejados, para que se desenvolvam de maneira harmoniosa, cada uma dentro do seu ciclo de vida.
A técnica tem nome. Chama-se Sistema Agroflorestal, também conhecido como SAF, uma forma de usar a terra de forma semelhante a uma floresta. Ou seja, no mesmo espaço, combina-se árvores frutíferas e madeireiras com cultivos agrícolas, ou até mesmo com a criação de animais, de forma simultânea ou em sequência temporal, e que vão interagir econômica e ecologicamente.
No Paraná, o sistema já está em uso há cerca de 15 anos na região do Vale da Ribeira, nos municípios de Adrianópolis e Bocaiúva do Sul, localizados ao norte de Curitiba. O sistema foi desenvolvido pela Cooperafloresta, que, apesar do nome, funciona como uma associação, envolvendo 110 famílias de agricultores familiares de Barra do Turvo, município paulista na divisa com o Paraná, de Adrianópolis e Bocaiúva do Sul.
No Litoral, quatro agricultores já implantaram o sistema, dois em Morretes e dois em Antonina. A idéia de levar o sistema para o Litoral partiu de técnicos da Embrapa Florestas, de Colombo (Região Metropolitana de Curitiba), e contou com apoio de outros órgãos como o Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), prefeituras, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Seti), que viabilizou recursos, e da Cooperafloresta, que está ensinando a técnica aos agricultores. A atividade faz parte do Projeto Juçara, criado há um ano pela Seti e Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), com objetivo de preservar a palmeira juçara, típica da região. A juçara está em extinção vítima de corte ilegal para extração do palmito. A árvore, no entanto, também produz frutos, cuja polpa é muito semelhante ao açaí.
O engenheiro agrônomo Luís Cláudio Maranhão Froule, pesquisador da Embrapa, conta que a idéia surgiu a partir de algumas demandas na região. A primeira, em função de um levantamento feito pelo Conselho Regional de Desenvolvimento Rural, Pesqueiro e do Artesanato do Litoral Paranaense (Cordrap), que apontou dez espécies nativas em risco, entre elas a juçara e a caxeta (que produz uma madeira macia). A segunda, foi o fato do local estar próximo de uma Área de Preservação Ambiental (APA), o que acarreta em muitas restrições para exploração do local.
A primeira preocupação foi garantir que a população local continuasse produzindo juçara, ''mas sem caracterizar uma atividade ilícita'', ressalta Froule. Ele conta que a juçara produz o palmito em quatro anos, mas é preciso cortar a árvore para extraí-lo. Já o fruto aparece a partir de oito anos, mas tem caráter longíveo, ou seja, vai dar frutos todo ano por 30 anos ou mais. ''Quando pensamos em inserir a juçara em um sistema de produção, já se pensou em um sistema estratificado'', explica. Isto porque a juçara é uma espécie que requer sombras e, portanto, não poderia ser plantada em sistema de monocultura.

mockup