Do ovo nasce a lagarta que cresce delicadamente alimentando-se de folhas de amora frescas. O alimento natural fortalece o bichinho para o inverno, quando as temperaturas frias pedem abrigo especial. No casulo, o bicho tece a seda que, na primavera, se rompe para expulsar a colorida mariposa. É da transformação da lagarta em mariposa que os agricultores de Nova Esperança tiram o sustento dos filhos. Como pequenas crisálidas, rompem barreiras econômicas, sociais e ambientais para sobreviver com decência e até um certo conforto às dificuldades do campo.
  Maria do Carmo Sosai, 38 anos, toca sozinha uma produção de cerca de 90 quilos de casulos mensais. A renda, que chega a somar até R$ 700 numa safra de boa produtividade, é toda empregada em benfeitorias na casa da família. ‘‘Construí a minha casa com seda’’, brinca a produtora, que mora na Vila Rural de Nova Esperança com o marido e dois filhos adolescentes.
  ‘‘Quando mudamos para cá a última coisa que meu marido queria era cuidar de bicho-da-seda’’, lembra Maria do Carmo. Há dois anos, a dona-de-casa, percebendo o sucesso das vizinhas na sericicultura, resolveu iniciar a pequena produção de casulos no fundo do terreno de 4,5 mil metros quadrados. ‘‘Aprendi a plantar, estercar, carpir e podar a amoreira por conta própria. Ainda cuido da lavoura sozinha, mas preciso da ajuda do meu marido para mover os bosques (telas que abrigam os casulos), que são pesados’’, diz.
  A atividade não atrapalha a rotina diária, que inclui cozinhar, lavar e passar a roupa da família, limpar a casa e, por que não, assistir as novelas preferidas. ‘‘Durante a safra trabalho 17 dias sem parar. Quando os casulos estão formados e prontos para entrega, posso descansar até o início da próxima safra. Onde é que uma dona-de-casa de uma vila rural conseguiria um trabalho como esse, na sombra e com tempo de sobra para cuidar da família e do jardim?’’, questiona.
  Manoel Angelo dos Santos, o marido, aprendeu a gostar dos bichinhos tanto quanto a esposa, que se preocupa com a criação como se fosse um terceiro filho. ‘‘Com dedicação, uma família de até três pessoas pode viver só da sericicultura mesmo numa área pequena como a nossa’’, defende.
  Ele recorda que a família chegou a cultivar outras culturas antes de acertar no bicho-da-seda. ‘‘Plantamos milho e amendoim, mas nunca conseguimos pagar sequer a semente usada no plantio’’, conta Santos, que com recursos do Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar (Pronaf) conseguiu erguer o barracão e comprar os bosques para iniciar a atividade. ‘‘Tínhamos medo, mas hoje conseguimos pagar as parcelas tranquilamente. Inclusive faltam apenas duas para quitarmos o financiamento’’, comemora o pedreiro, que complementa a renda familiar trabalhando em obras na cidade.
  Para Maria do Carmo a sensação é de sonho realizado. ‘‘Nunca quis morar na Vila Rural, mas um dia, passeando pela redondeza, avistei essa casinha e disse para mim mesma: se tiver que mudar será para cá. Olha só o que faz a força do pensamento’’, confessa.

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