O fato mais importante nos últimos anos para a pecuária de leite ocorreu esta semana: as indústrias de laticínios do Paraná deverão adotar, a partir de outubro, uma antiga reivindicação do setor: um preço de referência ao produtor estipulado previamente, com um mês de antecedência. Atualmente, o valor só é definido e pago um mês após a entrega do produto.
Segundo informações divulgadas pela Agência Estadual de Notícias, Faep e Ocepar, o estudo para estipular o preço mensal foi encomendado ao Departamento de Economia Rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e tomará como base um trabalho desenvolvido para a remuneração dos produtores de cana-de-açúcar do Estado, que está sendo adotado, com sucesso, pela terceira safra consecutiva.
O levantamento de dados técnicos sobre os custos das indústrias de laticínios foi iniciado nesta semana. ‘‘Vamos monitorar os preços dos derivados para indicar preços de referência para a matéria-prima’’, explica o coordenador de ambos os estudos, professor José Roberto Canziani.
O preço pré-fixado é uma prática já adotada por grandes indústrias lácteas, como Parmalat e Nestlé, mas é a primeira vez que a medida é implantada em âmbito estadual. Em Goiás, o preço de referência foi adotado, mas apenas para indústrias que recebem incentivos do governo estadual.
A decisão é o principal resultado prático da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Alimentos da Assembléia Legislativa, que iniciou seus trabalhos em novembro passado.
A partir da CPI, a Federação da Agricultura do Paraná (Faep) e o Sindileite, que reúne 200 laticínios do estado, decidiram criar uma comissão paritária, com 16 membros, para adotar o preço de referência. Quinto produtor nacional, o Paraná coloca no mercado anualmente 1,8 bilhão de litros de leite (8,3% do total).
‘‘Finalmente o produtor vai começar o mês sabendo quanto vai receber e terá condições de planejar a produção’’, afirma o presidente da Comissão de Leite da Faep e principal interlocutor dos criadores no grupo de negociação, Ronei Volpi.
Para o presidente do Sindileite, Wilson Thiesen, a medida também possibilitará o planejamento de volumes mensais entregues por cada fornecedor e também a fixação de padrões mínimos de qualidade da matéria-prima entregue. ‘‘Isso poderá gerar um processo de parceria entre produtor e indústria’’, diz ele, que prevê adesão maciça dos laticínios ao programa.
O coordenador do Projeto Leite do Centro de Estudos Avançados e Economia Aplicada (Cepea), ligado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba (SP), Leandro Augusto Ponchio, afirma que a adoção do preço de referência no Paraná deverá fortalecer os produtores.
‘‘Esse mercado é regulado pela lei da oferta e da procura. Se não houver mecanismos de proteção, o produtor fica mais sujeito aos lobbies, principalmente das grandes redes de supermercados, que dominam as vendas’’, diz Ponchio. No Paraná, por exemplo, quatro redes, Sonae, Carrefour, Wal Mart e Pão de Açúcar, detêm mais de 40% do mercado de derivados de leite.
O Cepea divulga mensalmente boletim com levantamento dos preços nas seis principais bacias produtoras, São Paulo, Minais Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Bahia, que respondem por 80% da produção nacional. Segundo o pesquisador, a solução para o setor é a adoção do Mercado Futuro, com negociações a longo prazo com base nos preços do dia do fechamento do contrato, mas com mecanismos de proteção que permitem ajustes.

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