''Estamos abandonados igual cachorro sem dono''. Assim a dona-de-casa Sandra Alessandra Silva Lima define a rotina das cerca de 50 famílias que compõem a Vila Rural do Distrito de Paiquerê, Zona Sul de Londrina. Morando no local há cinco anos, Sandra já perdeu a conta das lavouras frustradas, das caminhadas no barro e dos ônibus lotados que teve de tomar para ir trabalhar na cidade.
Telefone é raridade na comunidade. ''Temos apenas um orelhão, que ainda funciona como celular rural'', assinala a dona-de-casa. As ruas são de terra e cheias de buracos, que impedem a passagem dos veículos em dias de chuva. Por esse motivo, o transporte é uma das principais reivindicações dos moradores.
Segundo Dirce Antonia Costa, presidente da Associação de Mulheres da Vila Rural, o único ônibus que leva os trabalhadores para o distrito passa às 6 horas da manhã, já lotado com passageiros de comunidades vizinhas. ''Quando chove, o motorista se recusa a percorrer todo o itinerário dentro da vila porque tem medo de atolar'', aponta. ''Muita gente tem de descer antes do ponto e caminhar com sacos plásticos nos pés para não sujar os sapatos'', completa.
Nos finais de semana, ressalta Dirce, o problema é ainda maior, pois o coletivo não entra na Vila Rural e os moradores têm de ir até Paiquerê para ter acesso ao transporte para Londrina. ''Já entregamos mais de cinco abaixo-assinados para a companhia de ônibus, mas nunca obtivemos resposta'', diz.
Policiamento e saúde também são precários. ''Meu filho foi picado por um carrapato e teve uma febre muito alta. Tentei ligar para a ambulância, em Paiquerê, mas eles desligaram na minha cara'', conta Tania Regina Rosa. Sem poder levar o menino ao pronto socorro, ela mesma teve de cuidar da criança. ''Graças a Deus ele se curou em casa mesmo'', afirma a mãe, aliviada.
O roubo de motos e galinhas é comum na comunidade. Esse mês, uma casa foi invadida enquanto os moradores não estavam. ''Eles quebraram o vidro e usaram uma cadeira para subir a janela e roubar o rádio. Ainda usaram um lençol que estava pendurado no varal para esconder o objeto'', relata a moradora Sueli Percinoto Flesx de Lima.
Os principais problemas elencados pelo grupo de moradores estão ligados à falta de assistência social e técnica à comunidade. De acordo com Sandra, o projeto - que teve início há cinco anos - é coordenado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e prevê a complementação da renda familiar por meio da agricultura de subsistência e da costura.
No início do projeto, lembra a dona-de-casa Sandra Lima, foram definidas visitas mensais de uma assistente social e um engenheiro agrônomo da Emater ao local, mas isso nunca aconteceu. Também estava previsto o fornecimento de máquinas de costura e de um sistema de irrigação para os moradores. ''As máquinas já chegaram e as mulheres até já fizeram os cursos de capacitação, mas nós ainda estamos esperando a irrigação'', declara.
Maria Lúcia Menegazzo dos Santos era a sub-prefeita de Paiquerê quando o cargo foi extinto pelo atual prefeito de Londrina, Nedson Micheleti. Ela participou da construção da vila rural e acompanhou de perto as reivindicações da comunidade, que segundo ela, está realmente abandonada e desesperada. ''A gente vê a dificuldade que é a realidade deles sem um centro comunitário, sem ônibus, sem moledo nas estradas. Parece descaso'', reclama.

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