''Estamos à espera da próxima colheita para pagarmos as dívidas da safra passada'', desabafa o agricultor Revimar Peres, de Marilândia do Sul (34 km ao sul de Apucarana). As dívidas de Peres são decorrentes do último calote dado por duas empresas de São Paulo (SP) que levaram a produção de tomates e vagens colhidas entre dezembro e janeiro passados. Somando os calotes que já sofreu, Peres calcula prejuízo de R$ 150 mil nos últimos cinco anos.
O calote, de acordo com o engenheiro agrônomo Romeu Suzuki, da Emater, é um dos principais problemas dos horticultores daquela região. A situação tem se agravado nos últimos anos e casos como o da família Peres têm sido cada vez mais frequentes.
Suzuki presume que mais de 500 produtores de cidades da região (Marilândia, Mauá da Serra, Califórnia e Faxinal) foram lesados na comercialização da produção da última safra. Ele também não sabe o valor total do calote, mas estima que esteja próximo a R$ 1 milhão. ''A assitência oficial tem estrutura para ensinar a produzir melhor, com qualidade, mas não ensina a vender'', admite.
Apesar de haver grandes áreas de soja, trigo e milho, as pequenas propriedades ainda predominam 1.190 propriedades de até 12 ha. A horticultura ocupa 10% dos 30 mil hectares (ha) de área agricultável de Marilândia do Sul e, segundo o prefeito Jaime Rossi (PMDB), representa 8% do Produto Interno Bruto (PIB). Além da contribuição nos valores do Fundo de Participação dos Municípios, a cultura é responsável por uma boa parcela dos empregos gerados no município. ''Cada três hectares de horta ocupa pelo menos 20 pessoas'', estima.
Mas a paisagem de canteiros de cenoura e repolho não integram apenas o panorama da zona rural. Estimulados pelo clima e solo apropriados, as hortas se espalham por terrenos urbanos e fundos de vale. ''Qualquer pedaço de terra serve para renda'', destaca Suzuki.
Entre os principais produtos estão a cenoura, tomate, repolho, couve-flor, pimentão, acelga, beterraba, pepino, cebola e cheiro verde. O destaque é a produção de cenoura. O técnico da Emater diz que ela é a plantada em 2,5 mil hectares. A produção no verão é de 1.200 caixas de 25 quilos/ha. No inverno a produtividade dobra e chega a 2.500 caixas. O plantio escalonado garante colheita todos os meses.
O prefeito Jaime Rossi não esconde a preocupação com os sucessivos calotes sofridos pelos produtores. ''O calote descapitaliza e desestimula o horticultor além de diminuir a produção''. Suzuki conta que muitos produtores perderam as propriedades por não terem como saldar as dívidas do plantio. Há empresas de insumos da cidade cobrando até 9% de juros por mês.
Tanto o prefeito como o técnico insistem que a organização dos produtores ainda é a melhor alternativa para minimizar os riscos do calote. Há 10 anos foi criada uma associação de produtores que contribuiu muito na melhoria da qualidade da produção e na conscientização dos produtores com a padronização dos produtos. Apesar do sucesso, a associação está parada há dois anos. No ano passado, Rossi incentivou a criação de uma cooperativa, a Cooperativa dos Olericultores e Fruticultores de Marilândia do Sul (Horticoop), que entrou em funcionamento em dezembro de 2002. ''A cooperativa pode dar mais condições de venda e garantias legais de recebimento'', prevê.
Suzuki entretanto diz que o calote provoca um ''efeito dominó'', afetando mais pessoas ligadas a cadeia produtiva. Como a cooperativa que já está enfrentando dificuldades para receber as primeiras vendas efetuadas. O pagamento da produção entregue pelos 32 associados está com 60 dias de atraso. As duas empresas compradoras, uma de São Paulo e outra de Santa Catarina, tiveram as duplicatas protestadas e estão negociando com a direção da entidade o parcelamento da dívida. ''Estamos lutando para não desanimar os associados'', confessa o presidente Augusto Martinelli.
Martinelli afirma que as duas empresas foram cadastradas após minuciosa consulta realizada com o apoio do Banco do Brasil. ''São pessoas idôneas, não entendemos os motivos do atraso''. Na avaliação do presidente da cooperativa, o calote é mais frequente nos períodos de safra, quando a oferta de mercadoria é maior e desperta a ação de aventureiros. ''Na ânsia de não perder o produto na roça o agriculor não pensa na segurança da venda'', observa. Martinelli completa dizendo que ''tem muita gente honesta, não dá para generalizar''.

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