Festa no sítio
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sábado, 19 de janeiro de 2019

Numa conversa outro dia, uma pessoa me disse que no sítio em que ela morava, na época de Natal e Ano Novo, era o tempo que mais gostava porque tinha comida farta e refrigerante. Disse que pegavam as garrafas de refrigerante e levavam para um riozinho com água corrente e deixavam lá amarrados numa tarrafa até à noitinha pro líquido ficar fresquinho, já que não tinham geladeira.
Hoje a gente se acostuma tanto com as comodidades que fazem parte de nosso dia a dia que nem lembramos ou nem supomos das necessidades que passavam nossos pais e avós. Hoje, geladeira é tão trivial e há pouco mais de quarenta anos as pessoas tinham que cozinhar feijão todo dia porque azedava de hoje para amanhã. A banha de porco na lata era um recurso bem comum porque conservava a carne de porco por mais tempo e era um alimento muito usado no sítio.
Dia de fazer pamonha também era um festão. Juntava todo mundo e uns colhiam o milho - dava uma coceira daquelas pois as folhas do pé de milho são ásperas e cortantes e coçava pra valer ainda mais debaixo de um sol quente -, outros descascavam as espigas com muito jeito para não estragar a palha senão não dava para dobrar certo e encher com o caldo do milho. Outros mais, amarravam as pamonhas que eram colocadas num tacho com água fervendo. Com o que sobrava dava para fazer o famoso bolo de milho. Aquilo é que era festa. Todo mundo participava e se sentia parte do que estava sendo feito para comer.
Dia de festa da padroeira era especial. Depois da missa, a quermesse. Lá todo mundo se conhecia e muita gente começava a namorar após o consentimento dos pais. Namoro, só com vela-irmãzinha ou irmãozinho junto. Namoro era só segurando na mãozinha. Tempos e costumes que já vão longe e parecem tão distantes, mas eram uma realidade.
As festas de padroeira eram ainda unificadoras das pessoas no sítio, todo mundo ajudava com alguma coisa, por mais humilde que fosse e não havia quem não trabalhasse. No final era uma canseira só, mas a sensação do dever cumprido era tão boa que fazia tudo valer a pena. Era bonito de se ver as pessoas andando à beira da estrada com suas roupas simples e coloridas, crianças de mãos dadas com os pais, famílias que andavam quilômetros para chegar à festa pois moravam longe, debaixo de muito sol quente, felizes, apesar da caminhada longa. Nem todo mundo tinha uma charrete ou carroça para ir. Automóvel ainda não tinha tanto. Mas a vida ia assim, sapato apertado porque era dia de festa. Hoje reclamamos porque não sabemos qual sapato e roupa colocar.
Réveillon foi uma palavra incorporada ao nosso idioma para indicar a festa da passagem de ano novo, mas no sítio o ano novo não era tudo isso, era um dia como os outros, leite para tirar da vaca bem de madrugada - para quem tinha uma vaquinha -, mato para capinar no meio da roça saindo cheio de picão e carrapicho nas barras das calças, dar comida para os porcos e galinhas e assim por diante. Na roça sempre tem serviço o tempo todo.
O Ano Novo nos indica sempre vida nova e novos horizontes, mesmo que a vida seja a mesma e o horizonte seja o mesmo debaixo do mesmo sol. A diferença é o ânimo que se tem ao olhar o mesmo horizonte com sua luz todos os dias.
Dailton Martins, leitor da FOLHA



