Feliz Ano Novo agricultor
Em dezembro de 1995 o então presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Roberto Rodrigues, publicou artigo no Informativo Rural, órgão dessa entidade, colocando em dúvida se o produtor rural teria, no final do pior ano da agropecuária nacional, motivos para comemorar o Natal e a passagem de ano. Para Rodrigues, 1995 fora uma ano ruim: Foi o ano mais difícil das últimas décadas. Como seria 1996?
Segundo retrospectiva feita esta semana pela Assessoria de Imprensa da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), a renda agrícola em 96 caiu 25%. Mas a previsão é de que 97 poderá ser pior e se equiparar a 95. Em seu desabafo do final do ano passado, o então presidente da SRB dizia que era difícil imaginar um Natal feliz para os agricultores brasileiros em 1995. E apontava as causas daquela situação:...a inércia governamental quanto à crise econômica no campo foi impressionante, demorando meses para flexibilizar o uso dos depósitos a vista ou para securitizar as dívidas, sem falar nos problemas do Proagro e do Plano Collor, este finalmente julgado a nosso favor pelo STJ.
Em consequência, os agricultores - sobretudo os que cometeram o pecado de acreditar, produzir, trabalhar, investir, plantar, correr todos os riscos e, afinal - supremo erro! - colher - sofreram naquele ano três grandes danos: 1) a perda de renda por uma safra fisicamente 10% maior que a de 1994, mas que valeu R$ 9 milhões a menos. 2 Perda de 20% no P.I.B. total dos agricultores. Como os preços mínimos não foram corrigidos pela TR (indexador do crédito rural), o campo chegou ao maior endividamento desde 1 929 (no período daquele ano até 1933 o P.I.B. brasileiro caiu 1,06% e a taxa média anual de inflação caiu 5,46%, segundo relatório do Banco Central em 1990), quando começou a Grande Depressão mundial, o crack de 29, devido aos custos financeiros, reconhecidos pelo Governo como impossíveis de pagar. Adicionalmente os preços agrícolas em geral caíram em relação ao ano anterior, fazendo da cesta básica a grande âncora do Plano Real. 3) A perda do valor do patrimônio. O desespero gerado pela inadimplência levou milhares de agricultores a vender seus ativos, desde máquinas até terras, reduzindo violentamente os preços. A terra, então, valia 40% menos que um ano atrás. Neste final de ano, quando o retorno da atividade agropecuária foi menos ruim, a desvalorização média está por volta de 10%.
Como, então, comemorar o Natal, sabendo que esses fatos desempregaram milhares de trabalhadores nas fazendas e desassentaram agricultores profissionais enquanto o País importava alimentos? Devemos, sim, comemorar o fim de 1995. E confiar em que o Governo tenha percebido o erro cometido em tratar mal a agricultura. O ano que vem (96) pode ser o da virada: preços mundiais em alta, reforma tributária, redução do Custo Brasil...
A virada não aconteceu, segundo constata a Faep:
Em 1996 a economia agropecuária funcionou no rescaldo do desastre da comercialização da safra agrícola de 1995, quando o País obteve uma colheita recorde de 80 milhões de toneladas de grãos e um prejuízo de 25% da renda agrícola, diz a retrospectiva elaborada pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná.
A Faep continua, analisando o desempenho de 96:
A desorganização provocada pela política da âncora verde, de baixos preços para os produtos agrícolas, concorreu para deprimir mais ainda a renda da agropecuária, aprofundando a crise e funcionando como um freio à evolução do setor. Um erro na implantação do Plano Real permitiu uma supervalorização cambial, estimada em 20%, e essa defasagem cambial agiu como um redutor de preços internos, tornando mais baratos os importados, em detrimento da produção brasileira.
O quadro já por si só preocupante, teve outros agravantes. Os importados continuaram chegando ao Brasil com subsídios na origem, a juros de 6% ao ano, mais variação cambial, além de prazo de pagamento favorecido de até 360 dias, enquanto os financiamentos internos taxados entre 20% e 30% ao ano foram mantidos com prazo de pagamento curtos. Faltou proteção para o produto nacional. Ao mesmo tempo, a exportações de commodities agrícolas continuaram dificultadas pela tributação no embarque até pouco tempo atrás, sem que a queda do ICMS, decidida no final do ano, contribuísse para facilitar a comercialização da última safra.
Alguns outros problemas apontados na retrospectiva: o Governo calculou em 5,2 bilhões de reais a necessidade de recursos para financiar a safra, mas liberou apenas 3 bilhões de reais, quando o valor agregado pela agropecuária brasileira era estimado em 60 bilhões de dólares; aumentos significativos do desemprego e do êxodo rural - somente no Paraná 130 mil pessoas foram desempregadas pela redução da área de algodão; o preço da terra caiu, o produto nacional perdeu mercado, o custo de produção cresceu e o País gastou mais divisas, importando alimentos para suprir o consumo interno.
Ao agricultor não restou saída a não ser um endividamento maior para continuar produzindo, comercializando a safra a preços vis e comprometendo a renda da atividade. Foi um cenário conturbado, agitado pela arrastada negociação da dívida agrícola; a securitização, que apenas jogou as dívidas para a frente, atendeu somente 7% dos produtores paranaenses, que respondem por 30% da produção nacional.... E por aí afora. Feliz e Próspero Ano Novo, agricultor!





