Feira mostra passarinho cantador
Milton Dória
Curió, o pássaro canoro mais procurado e mais caro do Brasil
O bicudo é o segundo mais valorizado
Cardeal, campeão de beleza entre os pássaros cantores
Mineiro, presidente da associação: preservação de espécies
Benedito Silveira
Eles não costumam fazer grandes exposições, nem torneios, nem congressos, mas estão por aí às centenas. Somente registrados na Associação Ornitofílica de Londrina são cerca de 500 passarinheiros, deste e de outros municípios do Paraná, além de criadores de aves em São Paulo e Santa Catarina. Alguns possuem mais de 200 pássaros registrados e anilhados com identificação - condições básicas para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) autorizar a comercialização das aves.
O presidente da associação, Clemir Osório da Silva, o Mineiro, é comerciante de madeira e tem a criação de pássaros como hobby, a exemplo da maioria dos passarinheiros. Ele criou, em setembro, uma feira de passarinhos, que funciona domingo, na Praça do Aleijadinho (Vila Ipiranga). Domingo passado havia poucas aves na praça, porque elas estão trocando as penas, explicou Mineiro. Na muda de penas os pássaros não cantam, e não se deve levar passarinho na muda à feira, para ele não afinar, isto é, não ser dominado pelo canto dos outros pássaros e assim perder sua identidade canora. A associação Ornitofílica existe há cerca de 12 anos, e o atual presidente está no cargo há oito anos. Sentia a necessidade de um local onde os associados pudessem se encontrar. Ia na casa de um passarinheiro, não achava; ia na casa de outro, também não estava, recorda.
NegóciosDomingo uns 60 pássaros estavam na Feira, onde os negócios são feitos exclusivamente entre sócios e, principalmente, na base da troca. Se um criador está interessado numa ave de outro criador, propõe uma troca. Acabam fazendo negócio. Podem vender, também, porque o Ibama autoriza a comercialização de pássaros criados em cativeiro. O instrumento que regulamenta a criação de pássaros em cativeiro e sua comercialização é a Portaria 57/96, do Ibama.
Dos pássaros canoros brasileiros, o mais caro é o curió (Oryzoborus a. angolensis), quando tem o canto clássico. Na Feira dos Pássaros de Londrina sempre tem curiós. Não tão caros quanto um vendido no Estado de São Paulo por R$140.000,00, lembra Benedito Silveira, criador de bicudo (Oryzoborus maximiliari), participante da feira de Londrina. Especializado em bicudo, Silveira sabe até o nome do pássaro mais caro dessa espécie, o Xingu, negociado por R$100.000,00 em Ribeirão Preto e que está em São João da Boa Vista, SP. O comprador de Xingu deu ao vendedor uma casa no valor de R$60.000,00 e R$40.000,00 em dinheiro, para ficar com essa ave. Silveira fala também de um filhote de bicudo, comprado por R$60.000,00, que tem até CD do seu canto.
Trinca-ferro (Saltator similis) é outro pássaro de canto bonito, mas não é tão caro. Porém Mineiro, que gosta dessas aves, tem um que não vende: Nem por um carro novo. Ele não tem preço.
AmeaçadosEm muitos lugares do Brasil são comuns os torneios de pássaros cantores. Mineiro e Silveira explicam que existem três modalidades de canto para concurso: especial, peito de aço (nesta, os concorrentes ficam numa roda de gaiolas e os pássaros que vão afinando são desclassificados), Alta Mogiana (os concorrentes são colocados em uma estaca só, e os juízes ficam embaixo) e livre, que permite todo tipo de canto.
Se o curió é o pássaro mais caro por seu canto, o cardeal (Paroaria coronata) é o mais bonito. O sangrinho, ou sangue-de-boi, também é bonito, assim como o currupião e o galo-de-campina do Nordeste, entre outras aves.
Muitos pássaros canoros acham-se em extinção: o bicudo, por exemplo, quase já desapareceu de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso; também não está tendo, ou é raro, curió criado livre. No Paraná só se encontram alguns na região de Cândido de Abreu; o pássaro-preto está extinto no Norte do Estado (em Minas Gerais ainda tem bastante).
Mineiro afirma que dezenas de espécies já teriam sido extintas, se não fôssem criadas em cativeiro. Assim, eles são importantes na conservação e multiplicação de aves que estão se tornando cada dia mais raras devido à caça e à destruição de seu habitat. Calcula-se que existam em todo o mundo em torno de 10 mil espécies de aves, das quais 3.200 na América do Sul e 1.700 no Brasil.
ComeçandoPara começar a criar pássaros e participar da feira da Praça do Aleijadinho, o interessado precisa associar-se. Depois de associado, poderá adquirir pássaros anilhados, que comprará de criadores registrados (na Associação). Se não seguir esses passos, será um criador clandestino. Mineiro diz que a manutenção desse hobby é barata. O custo inicial depende da qualidade dos pássaros. Se criar curió ou bicudo, o novato deve preparar o bolso para uma despesa razoável na compra de reprodutores.
Ao lado, ouvindo os cantos do azulão, da coleirinha, do pintassilgo, do melro, da graúna, do bico-de-pimenta, do sangue-de-boi, do sabiá, do curió e do bicudo, José Pretto é atraído para a praça, todo domingo de manhã. Morador da Rua Amado Noivo, ele diz que é uma alegria acordar ouvindo os passarinhos.
Além do canto dos pássaros, a Praça do Aleijadinho ganhou mais atenção da Prefeitura, que mandou aparar a grama alta que até desencorajava os vizinhos a utilizarem o lugar. Agora, falta retirar dali umas árvores mortas; plantar outras árvores, de preferência pequenas frutíferas que possam alimentar passarinhos livres que são atraídos pelas aves de gaiola.
Nem tudo é perfeito. Tem alguém que não gostou dessa invasão de privacidade: o coleirinha (Sporophila caerulescens) crioulo da praça. Agitado, ele voa de um lado para outro e pousa nas gaiolas para brigar com os intrusos: Ele não gostou da invasão. Vive atacando nossos pássaros engaiolados, mas gostamos dele e já o escolhemos para nossa mascote, diz Mineiro.
Serviço: contatos com a Associação Ornitofílica de Londrina pelo telefone 324-4259.





