Faltam tecnologia e remuneração
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sexta-feira, 12 de setembro de 1997
Silvana Leão 
Dorico da SilvaProdutividadeMarco Antonio Lollato: Com melhor remuneração, o produtor poderia chegar tranquilamente aos 2 mil kg/haO brasileiro poderia estar comendo mais feijão. Para isso, bastaria que técnicas simples de produção - que nem sempre oneram o bolso - fossem adotadas e, a exemplo de outros países, a ação dos intermediários não pesasse tanto no preço final do produto. Estas foram as conclusões de um estudo da cadeia produtiva do feijão, feito durante dois anos por técnicos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
A pesquisa, que está em fase final de organização das informações, foi realizada nas quatro principais regiões produtoras do Paraná (Nordeste, Sudoeste, Central e Sul). Mais de três mil agricultores - inclusive produtores de sementes - foram ouvidos, além de técnicos, cerealistas e demais pessoas envolvidas na produção e comercialização do feijão.
Segundo o pesquisador Marco Antonio Lollato, líder do Programa Feijão do Iapar, o estudo mostrou que a tecnologia já existente permitiria triplicar, de imediato, a produtividade da cultura no Estado. Isso ficou comprovado nas regiões de Wenceslau Braz, Castro, Três Barras do Paraná e Boa Vista da Aparecida, onde os técnicos do Instituto deram treinamento para os produtores, para divulgar as tecnologias. A resposta em produtividade veio rapidamente.
GargaloLollato lembra que são práticas simples, muitas das quais o produtor poderia adotar sem grandes despesas, como correção da densidade e espaçamento; época adequada de plantio; ajuste das adubações (que devem seguir recomendações técnicas) e utilização de variedades de melhor potencial produtivo. Entre as medidas que exigem investimento por parte do agricultor, mas que são compensadas pelo alto rendimento das plantas, ele cita o controle de pragas e doenças.
Na opinião do pesquisador, porém, o grande gargalo da cadeia produtiva do feijão é a intermediação sofrida pelo produto, que por um lado remunera mal o agricultor, colaborando para que persista a falta de condições de investir em tecnologia, e por outro encarece demasiadamente o grão para o consumidor final. Atualmente o produtor, que enfrenta todos os riscos inerentes à agricultura, recebe entre R$ 0,40 e 0,50 pelo quilo do feijão, enquanto o consumidor paga em torno de R$ 1,00 o quilo. O intermediário não corre riscos, tem pouquissimas despesas com empacotamento, e mesmo assim chega a dobrar o preço do produto.
Para Lollato, se o produtor tivesse uma pequena melhora na sua remuneração, poderia dar o salto tecnológico necessário para fazer com que a produtividade passasse dos atuais 900 quilos/hectare para índices superiores a 2 mil kg/ha. Uma medida que ajudaria o desenvolvimento da cultura no Estado seria o fortalecimento do programa de calcário, que beneficiaria diretamente os produtores de feijão, pelo fato da maioria estar em regiões de solo ácido. Outra medida seria o estudo de uma linha de crédito com acompanhamento técnico, exemplifica.
Cultura em criseSe a situação dos pequenos produtores de feijão de cor é preocupante, pior ainda parece estar a dos que cultivam feijão preto. De acordo com dados publicados na revista Agroanalysis, editada pela Fundação Getúlio Vargas, a cultura está em plena decadência no País, e os agricultores, sem acesso ao crédito e com baixo índice tecnológico, sofrem cada dia mais a concorrência de produtores argentinos e americanos. A Argentina, beneficiada pelas facilidades decorrentes do Mercosul, planta feijão preto basicamente para atender o mercado brasileiro.
Os americanos também já despertaram para o mercado potencial existente aqui, e lutam para vencer algumas dificuldades de produção. Não é para menos. Existem cerca de 13 milhões de consumidores que praticamente só compram feijão do tipo preto, que o próprio Brasil não está conseguindo atender. E é assim que um produto básico da mesa do brasileiro, cultivado acima de tudo por pequenos produtores, está sendo gradativamente submetido às leis do mercado internacional.


