Faltam ações para recuperação É uma das bacias hidrográficas brasileiras mais estudadas, porém, os níveis de poluição ainda são altos Cristina Côrtes De Londrina A conservação e recuperação de qualquer ecossistema deve ser apoiada numa sólida base científica que oriente as ações adequadas. Com o objetivo de fornecer subsídios para propostas de reequilíbrio da biodiversidade da Bacia Hirdrográfica do Rio Tibagi, uma das maiores bacias brasileiras, foi iniciado em l989 um trabalho de pesquisa sob responsabilidade de professores e estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O projeto é desenvolvido pela UEL em convênio com o Consórcio Intermunicipal para Proteção Ambiental da Bacia do Rio Tibagi (Copati) e a Klabin Fábrica de Papel e Celulose. No final de fevereiro, durante um encontro de cinco dias, pesquisadores e avaliadores de outras instituições estiveram reunidos para uma Análise Integrada dos 10 anos do projeto ‘‘Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi’’. Segundo a coordenadora do evento, professora Claúdia Bueno dos Reis Martinez, os avaliadores ficaram impressionados com a qualidade do trabalho desenvolvido, com o volume de informações e com o número de alunos envolvidos no projeto. ‘‘Ao todo são 75 monografias de alunos de graduação que analisaram diversos aspectos da bacia’’, comenta Claúdia. Apesar da qualidade desses estudos, as ações para promover a recuperação da bacia ainda não foram concretizadas. Segundo os pesquisadores da UEL, a bacia continua com altos índices de poluição e desmatamento. Os principais agentes poluidores da Bacia do Rio Tibagi são os dejetos de indústrias, os produtos químicos usados nas lavouras e os esgotos domésticos. Resultados Os estudos realizados na bacia identificaram 1173 espécies de organismos, das quais 470 são árvores, 103 espécies de peixes e 476 espécies de aves. Estes organismos estão distribuídos nos diversos ambientes que compõem a bacia formada por florestas, campos, brejos, cerrado, rios e lagos. Segundo o professor do Departamento de Biologia Animal e Vegetal, Francisco S. Soares, que trabalha no projeto, as diferenças climáticas entre o Norte e Sul da bacia faz com que certas espécies se distribuam de maneira diferente pela bacia. ‘‘Árvores e peixes foram representados por um maior número de espécies no Norte do que no Sul. No caso de aves, o número foi semelhante, mas a composição foi diferente’’, informa. Certas espécies de peixes são reconhecidos como excelentes indicadores biológicos, especialmente quanto à sensibilidade a poluentes. ‘‘A bacia sofreu muitas degradações ao longo dos anos e verificamos que sua alta biodiversidade natural só pode ser observada no Parque Estadual da Mata dos Godoy, no Parque Ecológico da Klabin e no Parque Estadual de Vila Velha’’, comenta Soares. Avaliação Segundo a professora Cláudia, há 10 anos, quando o projeto foi iniciado, surgiram muitas idéias de como recuperar a biodiversidade da bacia. ‘‘Mas algumas daquelas impressões iniciais foram sendo redirecionadas depois da análise dos resultados dos trabalhos desenvolvidos’’, comenta. A professora e pesquisadora cita como exemplo dessas mudanças de posicionamento a estratégia de repovoamento de peixes no rio. ‘‘Os resultados dos vários subprojetos mostraram que o repovoamento não é uma estratégia adequada. ‘‘A degradação e a qualidade da água não permite a sobrevivência de certas espécies, por falta de recursos alimentares, então não adianta colocar peixes num rio com água comprometida ’’, explica. ‘‘E além disso o repovoamento poderia alterar o equilíbrio dinâmico natural daquele ambiente’’, completa. Com base nestas informações a Estação de Piscicultura da UEL redirecionou seu trabalho.‘‘Agora estão mais envolvidos com o desenvolvimento de técnicas em piscicultura e transmissão destas informações à comunidade, com o objetivo de incentivar o cultivo controlado de peixes’’. A expectativa é de que com esta estratégia e uma fiscalização mais rígida sobre pesca predatória e descarga de poluentes, haja uma recuperação natural da população de peixes na bacia. O viveiro de mudas também sofreu um redirecionamento. A recomposição das matas ciliares, citada com principal estratégia para recuperação da biodiversidade, não pode ser apoiada pela produção de mudas de um único viveiro. ‘‘É necessário implementar instalações de viveiros municipais’’. Conscientização Segundo os pesquisadores, o trabalho de recuperação da bacia envolve 46 prefeituras do municípios que a compõem, por isso a necessidade de um consórcio intermunicipal. ‘‘Qualquer decisão que interfira no meio ambiente, como por exemplo, a instalação de indústria, deve ser discutida com a comunidade local’’, explica Cláudia. ‘‘Nós temos percebido que há uma conscientização cada vez maior para a questão ambiental, com o surgimento de propostas como o turismo ecológico, que pode ser tornar uma atividade econômica interessantes’’, completa.