Cláudia Barberato
Somente um controle epidemiológico rígido do território, a exemplo do que é feito na Europa, poderá livrar o Brasil de problemas como aftosa, brucelose e outras doenças infecciosas nos bovinos, que impedem a abertura de exportação da carne brasileira para países da União Européia ou outros mercados.
A opinião é do dirigente do Istituto Zooprofilattico Sperimentale Delle Venezie, de Padova, na Itália, o veterinário Carlo Turilli. Ele esteve em Londrina, na semana passada para dar um curso no mestrado em Sanidade Animal da Universidade Estadual de Londrina e uma palestra para técnicos da área de saúde animal, no Sindicato Rural de Londrina.
Turilli foi também à Universidade de São Paulo falar sobre o trabalho do instituto, fundado em 1929, que atua na inspeção e controle de qualidade de produtos de origem animal feitos no seu país. Um destaque especial foi dado a brucelose, uma doença infecciosa que atinge animais e o homem, e é cada vez mais problemática. Uma das razões é que no homem não é diagnosticada como brucelose e confundida com outras doenças. ‘‘Não existem estatísticas confiáveis, mas sabe-se que a incidência é muito grande.’’
Programa de controle De acordo com o veterinário italiano, a erradicação de doenças depende fundamentalmente primeiro de uma gestão de emergência para agir na ocorrência do problema. Depois será necessário um plano de controle para a erradicação.
Países da Europa preferem hoje comprar produtos seguros, mesmo sem muita qualidade. É importante para eles que os produtos sejam provenientes de países onde não há certas doenças, do que comprar o produto brasileiro, quase sempre superior em qualidade, com receio das doenças como aftosa, brucelose e outras, que além de atingirem bovinos e outros animais, são também zoonoses, porque não há certificação que o País as tenha erradicado.
Turilli revela que a Itália ‘‘não compra quase nada’’ do Brasil em relação a produtos de origem animal, o que lamenta: ‘‘O Brasil tem produtos de alta qualidade, mas a falta de certificação destes produtos impedem que o mercado seja mais amplo.’’
Dificuldades ‘‘Erradicar demanda investimentos e num país como o Brasil, com um território imenso e peculiaridades em cada região, é muito difícil’’. Na Itália, segundo ele, o trabalho foi mais ‘‘fácil’’ já que aquele país é menor do que todo o Estado de São Paulo. Há também melhores condições econômicas do que as brasileiras.
Para que isso aconteça, de acordo com o veterinário, é preciso ter uma estrutura de fiscalização eficiente, ‘‘com maior número de veterinários, e formar e informar os produtores. Quando se conhece bem o problema é mais fácil evitá-lo.’’
Na Itália e na Europa como um todo, afirma Turilli, há hoje um rígido controle de tudo que acontece nas criações animais e, além disso, todo o produto que vem de fora do país é analisado. Só o instituto onde trabalha analisa mais de três milhões de amostras por ano. Com várias doenças erradicadas não se pode correr riscos de novos problemas.
Todas as criações são identificadas desde a propriedade até o ponto de venda, na chamada rastreabilidade. O serviço de veterinária é ligado diretamente ao ministério italiano de saúde para controle e vigilância de doenças de origem animal. ‘‘O trabalho é conjunto já que o consumidor final é o homem.’’
Segundo Turilli, na Itália, a pesquisa na área animal está concentrada agora para manter os níveis de segurança de doenças que já foram um problema. O instituto é hoje um centro de referência para a Itália e também para outros países da União Européia, no que se refere a doenças virais dos peixes, new castle nas aves, além de aftosa e outras doenças nos bovinos.
Há também profilaxia e controle sorológico de brucelose e leucose bovina. Outro trabalho é o controle de IBR e BVD, doenças bacterianas e virais. O instituto trabalha diretamente com os produtores, faculdades, veterinários públicos e outros profissionais da área de saúde humana e animal.
Hoje a pesquisa na Itália e Europa de maneira geral, afirma Turilli, trabalha para ser mais ágil, individualizada, com metodologias melhores e o mais barata possível. ‘‘O controle de entrada de produtos é rígido. Na Europa não entra nenhum produto sem controle ou certificação.’’
Trânsgenicos O instituto italiano está iniciando estudos de produtos transgênicos, principalmente com soja e milho, componentes da ração de animais. Segundo Turilli, ainda é cedo para aprovar ou reprovar a tecnologia. ‘‘Pouco se conhece dos efeitos destas plantas nos homens, animais e natureza. É preciso se informar mais e estudar os problemas que eles poderiam causar, se é que causariam problemas e se o resultado final é de real perigo.’’
Mesmo assim, quando se fala em vegetal, no futuro, a trânsgenese, na opinião do italiano, será uma necessidade. ‘‘Especialmente naqueles locais onde se tem dificuldades de cultivo e também falta de alimentos. A população do mundo aumenta sempre e as possibilidades de cultivo de alimentos são sempre menores. Mas é preciso esperar algumas gerações.’’ Ele acredita que o cultivo deve começar em países da África, por exemplo, onde existe problema de fome e permanecer apenas nesses países, ‘‘sem perigo, é claro.’’

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