Falta qualificação no campo
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Márcio W. Varella<br> Sucursal de Maringá 
A falta de trabalhadores rurais especializados está provocando a desativação de culturas, principalmente a criação do bicho-da-seda e a pecuária, na região Noroeste do Estado. O problema foi constatado pelo escritório da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Mandaguaçu, a 15 quilômetros de Maringá.
Dos 180 barracões que produzem a lagarta do bicho-da-seda na zona rural de Mandaguaçu, 20 já estão desativados. Os suinocultores e bovinocultores estão há dois anos com dificuldades para encontrar trabalhadores qualificados. O município tem 604 pequenos e médios produtores.
Caseiros O chefe do escritório local da Emater, engenheiro agrônomo José Sérgio Righitti, trabalha há oito anos na região e diz que é a primeira vez que está podendo perceber o problema: Temos a vaga, o emprego garantido, mas não temos gente habilitada. O que está ocorrendo é que a maioria dos agricultores que foram para a cidade está voltando para o campo, fugindo das contas de luz, água e do aluguel. Só que eles não se especializaram e quando chegam aqui querem trabalhar como caseiros.
Segundo Righitti, a estabilidade da moeda deu oportunidade para que o proprietário rural pudesse planejar sua produção: O pequeno e o médio proprietário estão chegando à conclusão de que é preciso se profissionalizar para trabalhar hoje no campo.
O melhor exemplo da falta de trabalhadores no campo, analisa Righitti, é a variação do número de habitantes de Mandaguaçu, segundo censo do IBGE. Em 1970, a cidade tinha 16.827 habitantes - 4.499 na zona urbana e 12.328 na zona rural. Em 1990, o número de habitantes diminuiu - passou para 14.693. Destes, apenas 3.584 continuaram na zona rural. Na zona urbana, o número mais que dobrou: 11.119.
Ociosidade Segundo o agrônomo, a realidade agrícola das outras regiões do Estado é a mesma de Mandaguaçu: A quebra do café e a mecanização da agricultura expulsaram o agricultor para as cidades. Antes, eles trabalhavam de sol-a-sol. Os que ficaram hoje só trabalham olhando no relógio. A amora substituiu o café para alimentar o bicho-da-seda. A Copel substituiu a turbina, que durava até dois anos. Os animais não bebem mais as águas dos rios, que estão poluídos. O juro fixo anual era de 1,5%.
O sericicultor Antônio Roberto Pupulin, 41 anos, está há dois anos com seus dois barracões que produziam a lagarta do bicho-da-seda parados por falta de sócios: Tenho cinco alqueires de amora plantados para alimentar a lagarta. Se tivesse um sócio especializado no trabalho, ele, em 30 dias, repartiria o lucro comigo. Tenho capacidade de produção de 240 gramas de lagarta. Os barracões têm 400 metros quadrados cada um. Meu lucro seria de R$ 2 mil. Só que eu não tenho ninguém com capacidade para tocar o negócio. Resultado: fechei um dos barracões. E agora, o que é que vou fazer com a amora?
Pupulin, que é presidente da Associação dos Suinocultores da região, diz que também neste setor existe muita dificuldade para arranjar mão-de-obra especializada: Não é qualquer um que pode mexer com porcos. Tem que ter experiência. Tem que ser técnico no assunto.
O agricultor Tyrone de Souza Gomes também tem dificuldades para empregar um técnico na sua bovinocultura de leite: Em três anos, tive três empregados diferentes. Ninguém pára no serviço. Existe uma rotatividade muito grande no setor, o que mostra a falta de gente para trabalhar no campo.
Para tentar minimizar o problema, a Emater está promovendo cursos profissionalizantes na região de Mandaguaçu. São cursos práticos de sericicultura, bovinocultura de leite e agricultura caseira. Os donos de minifúndios também estão aprendendo a gerenciar suas propriedades com esses cursos, diz Righitti.


