Falta luz, sobram dificuldades
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de março de 2005
Célia Guerra<br>Reportagem Local 
O sonho de aumentar a propriedade e dar melhores condições de vida à família, se tornou, na prática, um verdadeiro pesadelo para o agricultor José Raimundo da Silva, 63 anos, de Sapopema (132 km ao sul de Cornélio Procópio). A propriedade de 10 alqueires, comprada há três anos, não tem energia elétrica o que praticamente inviabiliza a criação de gado leiteiro, a maior atividade econômica da família. ''O trabalho de ontem, hoje eu jogo para os porcos'', diz ele em lágrimas, mostrando o leite azedo.
O rebanho de 20 animais permite a retirada diária de 40 litros de leite. Como não tem geladeira, José Raimundo acomoda os tambores com o produto dentro da represa ou do córrego que corta o sítio. ''É o único lugar que temos para manter o leite resfriado'', diz com simplicidade. A coleta do leite é feita por um autônomo que não mantém uma rotina fixa. ''Ele deveria vir dia sim, dia não, mas fica até dois dias sem recolher os galões'', diz. Mesmo nos dias em que há a coleta, se ocorre atraso na chegada do caminhão, o leite é rejeitado por ter perdido a qualidade.
A nutrição do gado também está comprometida pois a falta de energia elétrica impossibilita o funcionamento do triturador, que deveria ser utilizado no preparo da complementação alimentar. No ano passado, afirma, perdeu 10 animais.
Desde que entrou na propriedade, no início de 2002, ele protocolou na Companhia Paranaense de Energia (Copel), o pedido de instalação dos postes. A rede de energia está há exatos 180 metros do que se poderia chamar de curral. A falta de recursos o impede também de manter um local adequado para a coleta do leite. O curral está em péssimas condições e, mesmo desanimado, o produtor está tentando reformar o espaço.
José Raimundo reclama que por diversas vezes tentou contato por telefone com a regional da Copel, em Ponta Grossa, que é responsável pela área, mas nunca foi atendido. A justificativa é sempre a mesma: a chefia está em reunião. ''Eles não dão nem pelota prá gente ou para o que estamos passando'', lamenta. Na época, segundo ele, recebeu a visita de funcionários de uma empresa particular de eletrificação que ofereceram o serviço ao custo de R$ 8 mil pagos à vista. ''Para pagar um dinheiro desse só se eu vendesse as vacas e parte do sítio'', afirma.
No início deste ano, o vizinho Antonio Camilo da Silva, comovido pela situação de miséria em que vive o produtor, buscou informações sobre o pedido de instalação da rede elétrica. O programa no qual José Raimundo deveria estar inscrito, o ''Luz no Campo'', foi substituído pelo ''Luz para todos''. Mas a prioridade de antendimento, apurou Camilo, são os assentamentos e a data para a instalação é até 2008.
A prefeitura de Sapopema não tem o número exato das propriedade rurais do município que sofrem com a falta de energia elétrica. Segundo Ana Paula Gomes Alexandre, assessora da Secretaria de Agricultura, desde janeiro estão realizando o cadastramento das propriedades rurais no programa ''Luz para Todos'', criado pelo governo federal. O produtor José Raimundo, segundo ela, já está cadastrado. A responsabilidade para a instalação de novas redes no município, segundo ela, é da regional de Londrina.
Este ano, a secretaria já enviou 90 cadastros para a Eletrosul, empresa responsável pelo serviço. Ana Paula diz que a prioridade do programa são municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), assentamentos e pequenas propriedades. ''Essas são características de nosso município, por isso, acreditamos que sejamos contemplados até o final do ano'', afirma.


