Falta interesse no cultivo de grãos especiais
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sexta-feira, 15 de março de 2002
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Interessados nas propriedades terapêuticas da soja, consumidores brasileiros buscam cada vez mais utilizar o produto na alimentação diária. O País, porém, ainda não tem produção específica do grão para esse mercado, informou o pesquisador Lineu Alberto Domit, um dos coordenadores do dia de campo que a Embrapa Soja promoveu em Londrina no dia 8 de março. Durante o evento, a instituição apresentou aos participantes duas novas variedades de soja com características adequadas para alimentação humana.
Domit explicou que os produtores não investem em variedades especiais porque não existem compradores para o produto no mercado interno. Há apenas uma produção pequena de soja orgânica, ressaltou, acrescentando que as 16 mil toneladas colhidas por safra são comercializadas no exterior.
Desafio A falta de interesse dos produtores é explicada pela baixa remuneração obtida pelo produto diferenciado, que acaba sendo vendido junto com a soja convencional. Não adianta plantar uma variedade especial e receber o mesmo preço pago pela soja comum, analisou.
O desafio, considera, é conseguir que as empresas da área de alimentação paguem mais pelo grão de melhor qualidade. Nas lojas especializadas, o quilo do grão é caro, mas o valor não é repassado para o produtor, criticou.
Nicho de mercado O professor José Roberto Canziani, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), analisa que tanto o mercado de soja orgânica como o do grão para alimentação humana têm potencial de crescimento interno e externo. Ele lembra, no entanto, que se trata de um nicho, por isso, a produção nunca vai extrapolar para grandes áreas.
A dica para quem está pensando em entrar na atividade é plantar apenas mediante o fechamento de um contrato antecipado de compra, inclusive se o objetivo for a exportação. Não dá para se aventurar sem mercado consolidado, avaliou. No caso dos orgânicos, também é importante contar com uma assitência técnica preparada. A mídia muitas vezes supervaloriza pequenos nichos de mercado, induzindo produtores a aderirem de forma intempestiva. Não basta produzir, é preciso garantir a comercialização, disse.
Novidades Na estação experimental sobre novas variedades, durante o dia de campo, foram mostrados os pré-lançamentos BRS 213 e BRS 216, especiais para consumo humano. A primeira possui sabor mais suave que as cultivares tradicionais porque é isenta de lipoxigenases, enzimas responsáveis pelo gosto de feijão cru característico da soja. A BRS 216 possui o mesmo sabor que as variedades tradicionais, mas é ideal para produção de Natô, alimento bastante consumido por japoneses.
Também foram lançadas a variedade precoce BRS 212, caracterizada por pouco acamamento e boa resistência a doenças; e BRS 214 e BRS 215, de ciclo mais longo e adequadas para regiões quentes. As três estarão disponíveis aos produtores em três anos.
Entre as variedades já existentes no mercado, foram apresentadas a BRS 183 (sem acamamento e com boa resistência a doenças) e a BRS 184, que permite plantio em meados de outubro, possibilitando o cultivo posterior de milho safrinha.
Agrotóxicos Pela primeira vez, o dia de campo da Embrapa reservou uma estação experimental para tratar da utilização correta dos agrotóxicos. De acordo com Fernando Adegas, pesquisador da Embrapa e da Emater, o objetivo foi esclarecer sobre os cuidados necessários à administração desses produtos, o que inclui desde a compra com base em diagnóstico de um agrônomo, até a adoção de medidas de segurança na aplicação e o correto descarte das embalagens para evitar a poluição do meio ambiente.
Adegas e o professor Adelino Pelissari, da UFPR, que também é coordenador científico do programa estadual Terra Limpa, esclareceram sobre a lei que instituiu o Programa Nacional de Recolhimento de Embalagens de Agrotóxicos, que começa a valer em 1º de junho. De acordo com a nova lei, cabe ao agricultor efetuar a tríplice lavagem e entregar as embalagens nos locais previamente indicados, além de guardar o seu comprovante de entrega por um ano. O revendedor é responsável por recolher as embalagens e a indústria, pela reciclagem ou incineração dos recipientes.


