O atraso no repasse de parte dos recursos do Programa Paraná 12 Meses, do governo do Estado, está causando sérios problemas para pequenos agricultores de Guairacá, patrimônio de Londrina. Dos 80 produtores atendidos pelo programa, cerca de 20% ainda não fizeram o plantio da safra de verão, por falta de sementes e outros insumos. Além de praticamente perderem a safra, esses produtores tiveram gastos com o preparo do solo. ‘‘A expectativa de que os recursos seriam liberados levou muitos produtores a gradearem a terra duas ou três vezes, gastando o pouco dinheiro que tinham no aluguel de máquinas e equipamentos’’, afirma José Felix da Silva, um dos líderes da comunidade.
‘‘Acabei me endividando’’, conta o agricultor José BetetoEssa mesma expectativa levou a maioria dos produtores a negociar com os fornecedores. ‘‘Dei um cheque pré-datado na empresa de insumos, que seria devolvido assim que o dinheiro chegasse. Como não houve o repasse, acabei me endividando. Agora espero ser ressarcido’’, diz o agricultor José Beteto, que preferiu não perder a época de plantio. Outra alternativa encontrada por alguns produtores foi substituir a lavoura de milho, principal cultura da região, por vassoura ou arroz, produtos de menor importância para a comunidade. ‘‘Cada um se virou como pôde. Alguns plantaram apenas metade da área, outros debulharam milho do paiol e semearam. Outros pegaram semente de vassoura na roça. Mas a situação está complicada’’, diz José Félix.
PerdasO produtor Erotildes de Araújo é um exemplo dessa situação. No Sítio Santo Antônio parte do solo ainda está descoberto. O agricultor aguarda a liberação dos insumos para plantar milho. ‘‘Estou perdendo cerca de 600 sacas de milho, que é a produção média da minha área, quando a semeadura é feita na época correta’’, diz. Araújo pretende agora plantar grãos de milho. ‘‘Vou tentar salvar alguma coisa, mas já não há como reparar as perdas que tive’’, diz.
Erotildes de Araújo: perdas são irreparáveisEm situação similar está o agricultor João Frederico. Ele preparou duas vezes a área destinada ao plantio de milho, esperando as sementes. ‘‘Gastei quase setecentos reais com o aluguel do trator’’, conta. Como os insumos não chegaram, Frederico plantou ‘‘milho de paiol’’, que agora concorre com invasoras. ‘‘Estou esperando o herbicida’’, diz. ‘‘A semente sem qualidade e as plantas daninhas vão reduzir muito a minha produção’’. Nos 4,8 hectares da Estância Olivina, Frederico cultiva principalmente o milho, que é utilizado na alimentação de suínos. ‘‘Não faço dinheiro. O pouco que tenho é para meu sustento e de minha família. Essa perda na produção vai causar muitas dificuldades para mim.’’
Combate à pobrezaOs trabalhos do Paraná 12 Meses começaram em Guairacá no segundo semestre de 1998. A comunidade foi enquadrada com quatro projetos no subcomponente ‘‘Combate à Pobreza’’, que englobam desde a melhoria das residências e obras de saneamento, até o fomento agrícola e a reforma do barracão comunitário. Segundo o presidente do Conselho Municipal do Programa Paraná 12 Meses, Samir Cury, que é secretário de Agricultura e Abastecimento de Londrina, a primeira fase do programa já foi concluída. Dos R$154 mil destinados à comunidade, R$57,5 mil já foram repassados. ‘‘Eram recursos para a reforma de residências, construção de instalações sanitárias e melhoria do sistema de abastecimento de água das propriedades’’, afirma.
O problema agora está na liberação dos R$86,5 mil destinados ao fomento agrícola, que compreende a aquisição de sementes, adubo químico, calcário, animais de tração e vacas leiteiras. Como os recursos para essa fase ainda não chegaram aos fornecedores, os materiais não foram liberados. A situação causou revolta nos agricultores de Guairacá, que esperam a solução do problema. ‘‘Queremos recuperar o dinheiro que gastamos e voltar a produzir normalmente’’, diz José Felix. Eles ameaçam fazer uma manifestação na sede da Codapar (reponsável por gerenciar os recursos junto com o Conselho Municipal e a Comissão Regional do Paraná 12 Meses) em Londrina, caso os recursos não sejam liberados até o final da próxima semana.
CriseO gerente estadual do Programa Paraná 12 Meses, Humberto Malucelli Neto, justifica o atraso no repasse dos recursos como reflexo da crise econômica que o Brasil está passando. ‘‘Os problemas enfrentados pelo País comprometeram a economia do Estado, que acabou não tendo caixa suficiente para fazer o repasse’’, explica. Malucelli garantiu que o problema seria solucionado até o dia 22 deste mês. ‘‘Fizemos todos os esforços, mas só agora poderemos normalizar os trabalhos’’, afirma.
O Programa Paraná 12 Meses é um projeto do governo do Paraná, que está sendo implementado em todo o Estado. Um dos principais objetivos é reduzir a pobreza no meio rural e criar condições para manter o homem no campo. Para implementar o programa, o governo conta com recursos do Banco Mundial, que firmou um contrato para financiamento de US$175 milhões. Segundo Malucelli, a contrapartida do Estado seria, a princípio, de 50%. Com a crise, houve renegociação com o Bird e esse índice foi reduzido para 30%. A expectativa é que, nos seis anos de duração, o Programa beneficie cerca de 1,4 milhão de pessoas no Estado.

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