Solo preparado, produtores à espera de chuva para semear a terra. Mas a água que caiu do céu na semana passada veio com tanta intensidade em alguns locais que causou efeito contrário: em vez de ajudar, destruiu todo o trabalho já feito. No município de Primeiro de Maio, no Norte do Estado, o cenário deixado pelo temporal em determinadas áreas destinadas ao plantio de soja foi desolador - curvas de nível destruídas, enxurradas levando do solo a camada fértil, muita erosão.
Para alguns agricultores, o prejuízo é incalculável. ‘‘A camada fértil do solo foi toda embora, e agora, mesmo refazendo o preparo para plantio, não vai ficar a mesma coisa’’, dizia desanimado, na última terça-feira, o produtor Marco Antonio Garcia. Ele teve que contratar pá-carregadeira para fazer novas curvas de nível e precisou mexer novamente na terra em vários pontos da área de quase 11 hectares, que deveria ter sido semeada no domingo. Isso sem falar no calcário, que foi em grande parte desperdiçado.
Pelos cálculos de Garcia, os gastos com a recuperação da área ficaram em torno de R$ 82,00 por hectare. Antes, ele já havia gasto aproximadamente R$ 130,00/ha com máquinas e calagem, no preparo para plantio. Além de todo este prejuízo, o produtor ainda demonstrava preocupação com o prazo de plantio recomendado pela pesquisa para a região, que terminaria no dia seguinte (a Embrapa considera ideal o plantio até dia 20 de novembro, na região). ‘‘A gente está refazendo tudo para tentar semear o mais rápido possível, mas não vai adiantar nada se chover forte hoje ou amanhã de novo, porque o problema vem lá de cima’’, dizia.
Marco Garcia referia-se ao que ele considera a origem de todo o problema: a falta de integração entre os agricultores vizinhos. A sua propriedade, localizada numa das partes baixas da região, sofre os efeitos das enxurradas que vêm da parte de cima, onde os agricultores, por não sofrerem tanto com as intempéries, não fazem curvas de nível adequadas.
Negligência Além daquele, outros produtores enfrentam o mesmo problema e vão ter que arcar com os prejuízos nesta safra. Claudemir Parada Garcia perdeu cerca de 40% da soja já plantada em 18 hectares e terá que refazer o preparo de solo em outros seis hectares.
Donizette Galhardo, administrador da Fazenda Santa Leonilda, onde desemboca toda a água proveniente das propriedades vizinhas, não se conformava, no começo da semana, com a situação gerada pela negligência de alguns. ‘‘Este solo vai demorar, no mínimo, uns quatro anos para recuperar a fertilidade’’, afirmava. Na propriedade administrada por ele cerca de 36 hectares de terra pronta para plantio foram danificadas. Segundo Galhardo, se a soja já estivesse plantada o prejuízo aumentaria em R$ 200,00 por hectare.
Os estragos feitos pela forte chuva em Primeiro de Maio mostram claramente a importância da boa conservação do solo por parte dos produtores rurais, nem sempre levada muito a sério diante das dificuldades econômicas enfrentadas pela maioria. Porém, se o solo tivesse sido melhor manejado, com a adoção de práticas como o plantio direto e terraceamento integrado, de acordo com as indicações da assistência técnica, com certeza os estragos - e também os prejuízos - teriam sido muito menores.
‘‘O trabalho de contenção de água, através de curvas de nível adequadas, tem que ser feito em conjunto pelos produtores. Não adianta um fazer e os outros não’’, lembra o agrônomo do escritório da Emater no município, Augusto Edson Evangelista. Ele explica que as mesmas curvas de nível devem passar por várias propriedades vizinhas, e que o espaçamento entre elas deve ser determinado pela declividade e pelo tipo de terreno. ‘‘Existe uma tabela montada pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Embrapa para auxiliar este trabalho.’’
Medidas preventivasNa opinião do agrônomo da Emater, o agricultor deve estar sempre preparado para as chuvas, que nesta época do ano são mais intensas. ‘‘Às vezes passa uns dois anos sem chover forte, mas uma hora acaba vindo uma tempestade como a da semana passada’’. Segundo Evangelista, em apenas dois dias choveu quase 200 milímetros, que é o volume de um mês inteiro.
Só um conjunto de medidas é capaz de conter os estragos neste tipo de situação e promover uma correta conservação do solo. Três pontos são fundamentais, de acordo com o agrônomo: 1 - conter o escorrimento superficial, com sistema de terraços; 2 - promover o aumento da infiltração, com melhor preparo do solo e rotação de culturas; 3 - manter a cobertura vegetal, adotando-se o plantio direto. Evangelista lembra que as medidas devem ser tomadas nesta ordem, para que realmente sejam eficientes.

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