Falta de logística prejudica agronegócio
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sexta-feira, 22 de outubro de 2004
Agência Estado 
A queda dos preços agrícolas internacionais desde meados do ano, coincidindo com a alta do custo de produção, indica tempos difíceis para o agronegócio brasileiro em 2005 e 2006. Analistas e entidades do setor prevêem baixa rentabilidade nos próximos dois anos.
Um dos impactos da crise será o agravamento do gargalo logístico. Os investimentos em infra-estrutura de transportes e armazenagem não acompanharam o crescimento da produção e podem ser ainda mais reduzidos no período de vacas magras que se avizinha.
''O custo da ineficiência logística é absorvido quando os preços estão altos, mas pode se tornar um peso insuportável em períodos de crise'', avalia o analista Anderson Galvão Gomes, da consultoria Céleres, de Uberlândia.
A ineficiência, segundo ele, pesa na venda e no escoamento das mercadorias porque corrói parte do preço que o produtor recebe na fazenda. E afeta o custo dos insumos, que precisam ser transportados até o local de plantio.
Galvão menciona, como exemplo, que, se a rodovia BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, e a hidrovia Araguaia-Tocantins estivesse prontas, a crise seria muito menos danosa para os agricultores de Mato Grosso, principal produtor de soja e algodão. ''Quando o mercado opera com preços baixos, um sistema eficiente de logística oferece vantagens de base ao produtor, como ocorre nos Estados Unidos e na Argentina, no caso da soja'', diz. Os americanos e argentinos são os principais concorrentes do Brasil na produção e exportação do complexo soja e têm as vantagens mencionadas por Galvão. Estudo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) mostra que em 2003 o preço médio pago pela tonelada de soja nos portos dos EUA, do Brasil e da Argentina foi de US$ 216.
Mas, enquanto o custo de frete até o porto e as despesas portuárias correspondem a US$ 18 por tonelada nos EUA e a US$ 17 na Argentina, o sistema ineficiente no Brasil retirou do preço de venda US$ 41 por tonelada. O custo logístico adicional no Brasil em 2003, portanto, correspondeu a US$ 24 por tonelada embarcada, ou US$ 864 milhões no ano.
O custo logístico é um dos fatores de definição dos preços que o exportador paga pela soja nos portos brasileiros. Em 2004, a especulação de que a grande safra de grãos provocaria paralisia nas operações de portos exportadores derrubou os preços na entrada da safra brasileira. Historicamente, os preços da soja na entrada da safra têm um deságio de US$ 7,34 por tonelada em relação ao preço da Bolsa de Chicago, explica o analista André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult. Nesse ano, o deságio na mesma época foi de US$ 36,74 por tonelada.
''Não há porque imaginar que não vá acontecer a mesma coisa na entrada da safra de 2005'', diz. ''A diferença é que os preços internacionais da soja estão muito mais baixos.'' Na safra passada, explica Pessôa, 30% da produção foi vendida pelo agricultor antes mesmo da colheita. ''Portanto, o preço final embutiu um deságio histórico (US$ 7,34 por tonelada), e não aquele cobrado em abril.'' Segundo Pessôa, as vendas antecipadas de soja devem ficar próximas de 10% este ano porque os preços estão muito desestimulantes para o agricultor.


