Falta de arroz gera especulações
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sexta-feira, 25 de abril de 2003
Marta Medeiros<BR>Equipe da Folha 
Maringá - A crise no abastecimento do arroz, provocada pela queda na safra do Rio Grande do Sul, responsável por 50% da produção nacional, está levando as cerealistas do Paraná à importação junto a mercados não tradicionais como o norte-americano e o asiático. Para o consumidor, as consequências são: arroz fora do padrão normal e preços mais altos nos próximos meses com o pacote de cinco quilos do produto de primeira podendo chegar a R$ 10,00, mais que o dobro do valor comercializado no mesmo período do ano passado. A projeção é dos cerealistas e maquinistas de beneficiamento de arroz de Maringá.
Além da redução da safra, os produtores gaúchos estão segurando o produto na busca de melhores preços. Valores já considerados rentáveis, pois a saca de 50 quilos que no final do mês passado estava a R$ 25,00 passou, esta semana, a R$ 32,00, com previsão de alta para até R$ 40,00. A crise marcada pela falta de produto em plena safra - é tão atípica que pegou de surpresa cerealistas com 20 e 30 anos no mercado.
É o caso do dono da Cerealista Feijão de Ouro, Delcio Siste, de Maringá. Siste afirma que nunca viu situação como esta, ''com carência de arroz e estimativa de preços altíssimos''. O cerealista já está fechando contratos no Uruguai, mas lamenta os preços abusivos porque o país do Mercosul, a exemplo da Argentina, está trabalhando com o dólar mais valorizado em relação as cotações no Brasil. Além disso, o frete é outro problema. Dependendo da região do Uruguai, o frete pode custar mais de U$ 50 a tonelada, enquanto o valor da viagem do Rio Grande do Sul para Maringá é de R$ 75,00 (US$ 35) a tonelada.
A Argentina e o Uruguai são exportadores tradicionais e suprem a defasagem do mercado brasileiro. Enquanto o País consome cerca de 12 milhões de toneladas de arroz, a produção prevista deste ano não deve passar de 9,5 milhões de toneladas.
Segundo o diretor-presidente da Zaeli, indústria e distribuidora de alimentos, de Umuarama, Valdemir Zago, há 33 anos no setor, a alternativa de importação pode estar também nos mercados asiático, principalmente Tailândia e Vietnã, e no americano.
''Importar é uma alternativa para conter a alta porque de fato estamos com muitas dificuldades para comprar arroz no Brasil'', disse Zago. Ele afirmou que nunca presenciou uma situação assim. O desabastecimento do mercado é gritante porque os produtores do Mato Grosso também reduziram o plantio para dar espaço à soja.
Para Siste, que distribui arroz em 120 municípios das regiões Norte e Noroeste do Paraná, a retração no consumo também é esperada. Ele lembra que no final do ano passado, quando o preço do arroz disparou, o consumo caiu em até 15%. ''Já as vendas do arroz tipo 5, chamado de meio-arroz, aumentaram porque as pessoas, principalmente as mais carentes, acabam procurando outras alternativas na hora da compra'', disse o cerealista.
Tanto Siste como Zago acreditam que o governo brasileiro poderia intervir na situação bancando uma importação para abastecer e controlar o mercado ou diminuindo alíquotas que recaem sobre o arroz adquirido em outros países. ''O problema é que a intervenção no mercado deve ser imediata porque um processo de importação, dos Estados Unidos, por exemplo, demora mais de 40 dias'', disse Siste.
Segundo Zago, a questão centrada na redução de alíquotas de importação esbarraria na falta de proteção à safra nacional. Isso poderia tirar o incentivo dos produtores de arroz, ou seja, o governo estaria diante de um dilema entre atender o consumidor e ''desatender'' o produtor, afirmou Zago.


