Faep: fortalecer a agropecuária
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sexta-feira, 29 de julho de 2005
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
O ano de 2005 nem terminou mas já ficou na história das crises enfrentadas pela agricultura. E o agricultor, agente do desenvolvimento dessa atividade - que sustenta a economia brasileira -, tenta se manter enfrentando toda sorte de obstáculos, desde carga tributária até exigências ambientais descabidas. Nesta trajetória há momentos de mobilizações, enfrentamentos políticos, busca de recursos enfim toda uma luta para poder produzir em paz. No dia dedicado a esse profissional da terra, o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneguette, a convite da Folha Rural, faz um balanço desse trabalho. ''O produtor não merece essa indiferença'', resume.
Folha Rural - A crise deste ano mostra, de novo, uma certa vulnerabilidade do setor que, do dia para a noite, passa a depender de refinanciamento das dívidas, por exemplo. Por que isto? A agricultura não se capitaliza?
Meneguette - A crise atual da agropecuária é o resultado de uma conjugação perversa. O produtor plantou sua safra em 2004 com um dólar acima de R$ 3,00, com um custo de produção 20% mais alto que no ano anterior. Quando colheu, o dólar havia caído para R$ 2,40, com a agravante dos preços internacionais estarem em queda. Sobre tudo isso, uma seca que destruiu mais de 20% da safra do Paraná, mas teve gente que perdeu tudo. Ocorre que o crédito rural oficial abrange no máximo um terço do custo de produção. Assim, o produtor teve que lançar mão de sua poupança e ainda financiar parte dos insumos junto ao comércio. Está aí o desenho da crise. O que eu chamo de poupança é justamente o capital de giro do produtor. E mais, o que ele ganhou nos anos anteriores foi investido na própria lavoura, o que explica o fato de o Brasil e do Paraná estarem aumentando constantemente a produção, com recordes de produtividade.
Folha Rural - O que foi feito até agora para manter a qualidade da vida no campo? Para diminuir essa vulnerabilidade?
Meneguette - O produtor depende fundamentalmente do clima. Se for ruim, com seca ou chuva em demasia, perde a safra, pelo menos parcialmente. Essa vulnerabilidade de que você fala pode ser parcialmente resolvida com o seguro rural, uma antiga reivindicação dos produtores, que foi transformada em lei mas que infelizmente até hoje não saiu do papel. Esse tipo de seguro é muito caro e precisa ser subsidiado pelo Governo, que até o momento não providenciou recursos orçamentários para isso.
Folha Rural - Que lição se tira do tratoraço?
Meneguette - A primeira delas é que os produtores têm capacidade de mobilização. A segunda, é que o Governo assume compromissos, mas custa a cumpri-los porque o produtor não consegue manter a mobilização porque tem que voltar para cuidar da sua propriedade e assim deixar Brasília sem ver as promessas de governo realizadas. Ainda bem que a CNA e a bancada ruralista no Congresso se mantêm ativas, pressionando o Governo, mas aquele impacto de milhares de produtores na Esplanada dos Ministérios ficou só na lembrança. Mas no balanço final, o tratoraço teve seu êxito, sim.
Folha Rural - No Paraná se percebe um bom relacionamento da FAEP com as cooperativas, trabalhando juntas pelas melhorias do setor e da profissionalização do agricultor. Há casos até de trabalhos junto à Fetaep, incluindo a capacitação do trabalhador rural. Isso aponta para uma racionalidade de recursos e objetivos. É uma união de setores e segmentos?
Meneguette - Os objetivos da Faep, das cooperativas e da Fetaep são um só, atender aos interesses dos produtores e trabalhares rurais, sejam eles grandes, médios ou pequenos agricultores ou pecuaristas. Com essa identidade de propósito reconhecida, fica fácil o entendimento entre essas entidades que representam cada um desses segmentos. Veja um bom exemplo: o Conselho da Administração Regional do Senar-PR é formado por representantes da Faep, da Fetaep, da Ocepar e da Agroindústria, através da Fiep. O Programa Empreendedor Rural, uma iniciativa de Sebrae e Senar, recebeu a adesão de Fetaep e Faep, porque há por parte dessas duas entidades o desejo que os produtores rurais evoluam, melhorem sua renda, tenham voz política e participação ativa em suas comunidades.
Folha Rural - Outra ação que merece destaque é o programa Agrinho dirigido à formação das crianças para causas ambientais e do campo. Qual o objetivo desse trabalho. A criança está sendo valorizada como canal de conscientização dos pais?
Meneguette - O Programa Agrinho começou como uma forma de conscientizar os pais para os perigos na aplicação de agrotóxico, para evitar o grande número de intoxicações. Mas evoluiu e hoje é uma contribuição Senar Paraná para conscientizar as crianças e jovens em relação a problemas de saúde, do uso de drogas, da cidadania e do meio ambiente. O Senar está fazendo um trabalho do qual tenho um grande orgulho porque estamos ajudando a melhorar a vida dos paranaenses juntamente com os professores do ensino fundamental de todo o Estado.
Folha Rural - O perfil da agricultura está mudando? Porque há tanto investimento em cursos, por exemplo?
Meneguette - De um modo geral, o produtor paranaense aceita com facilidade novas tecnologias, o que demonstra os ganhos de produtividade dos últimos anos. Mas para usar essas novas tecnologias é preciso mais conhecimento e treinamento, que o Senar procura passar a trabalhadores e produtores através de seus cursos. No ano passado, o Senar qualificou 110 mil trabalhadores e produtores.
Folha Rural - Como vai a família rural?
Meneguette - Em comparação com a média das famílias urbanas, a família rural mora mal, porque não há programas sérios de casas na área rural; muitos não tem energia elétrica, nem água tratada. Enfrenta problemas sérios de segurança, com o aumento dos assaltos, roubos e até sequestros; tem muito mais dificuldades para receber tratamentos médios e seus filhos são obrigados a viagens diárias para poderem estudar. As escolas rurais, quando existem, são precárias e o acesso dos jovens ao ensino secundário e universitário é problemático. A família rural sai em desvantagem e não existe nenhum programa realmente consistente que resolva todas essas carências. É por isso que muitos jovens saem do campo em busca de uma oportunidade nas cidades e porque o produtor rural, quando melhora sua situação financeira, deixa o campo para morar na cidade.
Folha Rural - É da Faep também a idéia de integração da mulher nas decisões e no gerenciamento da propriedade. Por que essa participação. Já existem resultados?
Meneguette - A Faep só está ajudando a se concretizar um fenômeno que já vem ocorrendo, que é o da afirmação da mulher e a sua participação cada vez maior na vida econômica e social. Os programas do Senar vão nesta direção, como o Família e Qualidade de Vida, os grandes encontros de mulheres promovidos por sindicatos rurais e a participação delas nos cursos. Só no Empreendedor Rural, que já formou 10 mil trabalhadores e produtores rurais, 35% são mulheres. De uma forma geral, elas são mais organizadas e responsáveis. E criativas também. As mulheres devem participar cada vez mais da administração das propriedades.
Folha Rural - O desenvolvimento tecnológico no campo passa por uma série de fatores: recursos para adotar a técnica, boa vontade do produtor e às vezes entra até a questão de etnia (na pecuária leiteira, por exemplo, colônias holandesas e Witmarsum são mais desenvolvidas). Mas o que está faltando para que os produtores se tornem mais receptivos às técnicas ? Crédito e preço seriam o caso?
Meneguette - O salto na produção agropecuária nos últimos 10 anos, que praticamente dobrou a produtividade, mostra que os produtores estão se tecnificando. Comparando com a agropecuária do resto do mundo, especialmente dos países desenvolvidos, o produtor paranaense não fica longe. Pelo contrário, na produção de soja, por exemplo, é mais produtivo que americanos e argentinos. Um dos motivos é a utilização da tecnologia do plantio direto, da qual o Paraná é pioneiro. É claro que existem muitos produtores que ainda não conseguiram os padrões de produção dessa vanguarda de produtores. Para isso existe o Senar. É necessário que o Governo invista em extensão rural e em pesquisa, para eliminar o atraso de um bom número de produtores.
Folha Rural - O governo prioriza o apoio aos assentamentos - o que não é errado - e não investe nas pequenas e médias propriedades já instaladas e muitas delas estagnadas. Essas pessoas não podem ser os sem terras de amanhã? Não é preciso políticas e recursos de apoio e incentivo a esses produtores? Quem poderia ajudá-los?
Meneguette - Essa distorção vem sendo denunciada por nós há anos. Ao MST tudo - dinheiro, impunidade - e aos pequenos produtores migalhas. É por isso que digo que a família rural vai mal, não tem apoio do governo, que prefere ajudar os invasores de terras e esquece que há um êxodo rural que leva o pequeno produtor e o trabalhador rural para as favelas das grandes cidades. Para corrigir isso, o governo deveria ter políticas públicas pra valer e não ficar enganando a população com medidas inúteis e caras.
Folha Rural - O Paraná continua como um exemplo da concentração da possa da terra? Isso não é um reflexo da falta de apoio à pequena propriedade?
Meneguette - Apesar do grande êxodo rural dos últimos 10 ou 15 anos, o Paraná ainda tem uma estrutura fundiária baseada na pequena e média propriedade. Mas se não houver uma reformulação na política agrícola, que contemple pequenas propriedades, a concentração é um fenômeno inevitável. Se houver um empenho do governo no desenvolvimento de novas tecnologias e na extensão rural, com apoio para a comercialização da produção desse segmento, acho que é possível manter a pequena propriedade com uma renda digna para a família.
Folha Rural - Há uma reforma sindical acontecendo. Qual o seu comentário a respeito?
Meneguette - Em primeiro lugar, o governo enviou ao Congresso Nacional um projeto de reforma sindical que não tinha o consenso dos fóruns trabalhistas. Muito pelo contrário, o governo tentou impor uma reforma que foi repudiada pela grande maioria dos sindicatos. Além disso, o governo está usando a reforma sindical para esconder a sua omissão em relação a reforma realmente necessária, que é a trabalhista. Somente depois de feita a reforma trabalhista é que se deve pensar em como fica o sistema sindical diante de uma nova realidade. A reforma sindical que o governo pretende destrói o sistema sindical de base e dá poderes extraordinários e indesejáveis às centrais sindicais. É o sindicalismo de cima para baixo e não da base para cima, que é normal.
Folha Rural - A reforma pode tirar a obrigatoriedade das contribuições sindicais que representam uma fonte de renda para estas instituições, renda esta aplicada na oferta de cursos etc. A Faep tem alternativas de recursos para -(no caso de as reforma sindical tirar-lhe esta fonte) mesmo assim continuar custeando a formação, capacitação e reciclagem das agricultura?
Meneguette - Se for retirada a obrigatoriedade da contribuição sindical o que morre é o sindicalismo brasileiro, principalmente o dos trabalhadores. A fonte que alimenta os cursos promovidos para qualificação de trabalhadores e produtores vem do Senar, que é administrado pelo sistema sindical patronal.
Folha Rural - O seu comentário sobre a comemoração do Dia do Agricultor.
Meneguette - Com a crise que se abateu sobre a agropecuária este ano e com a lentidão com que o governo vem tomando as providências, o agricultor não tem muito a comemorar. A sociedade precisa reconhecer a importância que a agropecuária tem para o país. O agronegócio exportou, no ano passado, 39 bilhões de dólares e importou apenas 5 bilhões de dólares em insumos e equipamentos. Significa que o saldo líquido de divisas do agronegócio foi de US$ 34 bilhões. Como o saldo da balança comercial foi de US$ 33 bilhões, significa que se não fosse a agropecuária - que dá base ao agronegócio - o país já estaria falido. E esses saldos líquidos vêm sendo obtidos há anos. Mesmo assim, o Governo reluta em dar apoio quando o setor necessita. Deveria fazê-lo mesmo que não fosse em consideração ao produtor, mas para a economia do país. O produtor corre riscos - é o clima, é o mercado, é a falta de infra-estrutura, é o custo Brasil -e mesmo assim continua produzindo. Foi preciso um ''tratoraço'' para acordar a sociedade, mas temo que foi insuficiente para tirar o governo da sua letargia. O produtor não merece essa indiferença.


