''Fábrica''de moscas para controlar pragas
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sexta-feira, 27 de julho de 2001
Evanildo da Silveira Agência Estado 
Dentro de dois anos deverá estar funcionando no Brasil a primeira fábrica de moscas. É isso mesmo. Serão produzidos milhões delas todas as semanas, que ajudarão o País a se livrar de um prejuízo de US$ 60 milhões anuais em suas plantações de frutas. O anúncio foi feito pelo biólogo Aldo Malavasi, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), durante o simpósio Produção de inseticidas biológicos e avanços biotecnológicos no controle de pragas e vetores, realizado no último dia 16 durante a 53ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Na verdade a fábrica é um projeto de controle biológico da Ceratite captata, ou mosca do Mediterrâneo, oriunda da África, que ataca várias espécies de frutas, causando um prejuízo anual de US$ 1 bilhão em todo mundo.
TecnologiaPara combatê-la, o Brasil vai copiar tecnologia já usada nos Estados Unidos e países da América do Sul. Vamos produzir, a princípio, de 50 a 60 milhões de machos da espécie por semana, explica Malavasi, que faz parte do comitê que está planejando a implantação da fábrica.
Depois, aplicando radiação de cobalto, nós esterilizamos esses machos. Em seguida, usando aviões, nós os soltamos nas regiões infestadas, o Nordeste
e o Sudeste. Uma vez na natureza, esses milhões de machos estéreis copulam com as fêmeas nativas. Assim, eles enchem as espermatecas das fêmeas com esperma infértil, mas que impede que elas cruzem com machos férteis, explica Malavasi. As fêmeas só voltam a copular 20 dias depois, quando uma nova leva de machos inférteis, produzidos na fábrica já foi solta no ambiente.
De acordo com Malavasi, a fábrica deverá custar cerca de 2,5 milhões de dólares e será inaugurada em meados de 2003. Um comitê, formado por representantes da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), da USP, da Secretaria de Agricultura Irrigada do Ceará e da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia, está estudando o melhor lugar para a instalação da fábrica. O mais provável é que ela seja construída em um Estado da região Nordeste.
QuarentenaNo mesmo simpósio, o engenheiro agrônomo Luiz Alexandre Nogueira de Sá, do Laboratório de Quarentena Costa Lima, da Embrapa, falou sobre o papel do controle biológico clássico de pragas no País. Muitas das principais pragas de importância agrícola em todo o mundo são organismos originários de outros países, explicou. Ao chegar ao País, elas não encontram inimigos naturais. Daí a importância de se criar ou importar esses inimigos para controlar a proliferação do organismo indesejado. Segundo Nogueira de Sá, hoje o Brasil, importa várias espécies de ácaros, fungos, bactérias e vírus, usados no combate a pragas. Mas antes de serem soltos nas áreas infestadas, eles passam por uma rigorosa quarentena em nosso laboratório, explicou. O controle dos pontos de entrada do País, como portos e aeroportos, por exemplo, é outra estratégia usada para evitar a entrada de pragas.
Atualmente, por exemplo, a Embrapa está desenvolvendo uma campanha chamada Alerta Quarentário, para evitar que desembarque no Brasil a cochonilha rosada (Maconellicocus hirsutus), originária do Caribe, que ataca mais de 200 plantas, entre as quais, feijão, citros, coco, café e algodão. Além da campanha, que recomenda que qualquer suspeita de infecção seja comunicada ao escritório mais próximo do Ministério da Agricultura, a Embrapa está plantando ibiscos nos portos e aeroportos de entrada no Brasil. Essa é a planta de preferência da cochonilha rosada, explica Nogueira de Sá. Se ela entrar, logo saberemos.


