Deni Schwartz, que assume a secretaria da Agricultura na segunda-feira, diz que a conquista do mercado externo é importante, mas que a agricultura pode e deve atender os consumidores internos
Curitiba - O ex-diretor de Relações Institucionais da Companhia Paranaense de Energia (Copel) Deni Schwartz deixa o convívio com a família em sua fazenda (Querência do Iguaçu) em Nova Prata do Iguaçu, município da região Sudoeste, onde permaneceu nos últimos dois meses, para assumir o posto de secretário da Agricultura do Paraná. Ele assume o cargo nesta segunda-feira, dia 14, na sede da Emater, em Curitiba.
Deni já ocupou cargos de prefeito de Francisco Beltrão, deputado estadual e federal, secretário dos Transportes e ministro do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano. Atualmente está se dedicando às atividades da fazenda, onde mantém um aviário e uma leiteria. É cooperado da Sudcoop - Cooperativa Central Agropecuária Sudoeste Limitada - e integrado da Sadia. Atualmente entrega 500 litros de leite por dia para a Frimesa, e um lote de 16 mil a 18 mil frangos a cada 45 dias para a Sadia. Se considera um médio produtor.
Após passar por dramas familiares – sua filha morreu recentemente em um acidente de carro e seus netos quase foram alvos de um sequestro – prometeu a si mesmo dedicar o tempo à família, desde que se desligou da Copel em agosto do ano passado. Em entrevista à Folha, Deni Schwartz disse que mudou de idéia e que não podia deixar de atender o pedido do amigo e governador Jaime Lerner (PFL), razão pela qual aceitou o desafio de cuidar da pasta.
Deni disse que é muito próximo ao ainda secretário da Agricultura, Antonio Poloni, porque são da mesma região e destacou que ambos conversaram muito antes dele aceitar o convite. O novo secretário falou ainda sobre as mudanças de política econômica e agrícola que afetam a atividade. Engenheiro aposentado, disse que pretende defender os interesses dos servidores da pasta. A seguir os principais trechos da entrevista:
Folha - O senhor tem pouco menos de um ano para administrar a Secretaria da Agricultura. O que o senhor pretende fazer de mais importante neste período?
Deni - Tenho certeza que a Secretaria da Agricultura tem bons programas e não tenho a pretensão de grandes mudanças. Entendo que o que já está programado merece continuidade.
Folha - O estabelecimento da sanidade animal no rebanho do Paraná foi uma das principais marcas do secretário Antonio Poloni, que deixa a pasta. Como o senhor pretende administrar esse programa daqui para frente?
Deni - Pretendo continuar esse trabalho feito pelo Poloni, que recebeu elogios de toda parte. O mais importante é que esse trabalho permitiu ao Paraná sair da camisa de força da febre aftosa, para ganhar o mercado internacional. Também sou pecuarista e sei da importância desse trabalho para aumentar as exportações neste mundo globalizado.
Folha - Temos visto o crescimento da agricultura em outros estados na região do Cerrado e também na Bahia, com grandes investimentos em pesquisa e infra-estrutura, como estradas. Com isso, o Paraná começa a perder sua liderança na produção de grãos. Como o senhor avalia essa situação?
Deni - Em termos de infra-estrutura nenhum estado pode se comparar ao nosso. Aqui foram abertas estradas, foi implantando um sério programa de eletrificação rural, de microbacias que outros estados não têm. Mesmo em pesquisa, nossas universidades e o Iapar estão dando sua contribuição à Agricultura. A mim me parece que estes estados mencionados estão trilhando o mesmo caminho que o Paraná já trilhou. O que me preocupa não é a redução na produção, mas sim a necessidade de industrializar os produtos aqui cultivados. Sei do esforço do governo em apoiar a agroindústria e isso ganha importância para manter o nosso produtor competitivo. Isso porque exportando produtos ‘‘in natura’’, ele não consegue competir com produtores de outros países que recebem subsídios. Além disso, o apoio à agroindústria é uma alternativa para manter mão-de-obra no campo e a economia das pequenas e médias cidades do Interior.
Folha - Como o senhor analisa a situação das estradas do Paraná? O estado perde produção por causa da má-conservação das estradas estaduais?
Deni - Comparando com o resto do País, elas são boas. O Paraná não perde produção por falta de estradas. Se não estão em excelente qualidade, pelo menos há a expectativa da situação ser revertida com um amplo programa de recuperação de estradas estaduais, já anunciado pelo governo, para recuperação das estradas que estão em situação precária.
Folha - O senhor não se preocupa com o fato de o Paraná estar perdendo a liderança na produção de grãos?
Deni - O Paraná não tem mais fronteiras agrícolas como existem em outros estados. E não me estranha se perder essa liderança. Mesmo porque a Argentina é um grande país produtor e exportador de grãos para o mundo inteiro e infelizmente está quebrada economicamente. A produção de grãos em grande escala pode até provocar o empobrecimento do Estado, como aconteceu na Argentina. O que importa é elevar a produtividade da produção primária com a industrialização e vender bem esses produtos. O Paraná já sabe produzir bem, com técnicas avançadas e o que preocupa agora é a comercialização dos produtos. Produzir, nós produzimos. O problema é competir. Outra coisa, nos orgulhamos em exportar milho, quando na verdade deveríamos estar exportando frango ou leite, que iria agregar mais emprego e renda para o nosso Estado, além de fixar a mão-de-obra.
Folha - Como o senhor pretende atrair investimentos de agroindústrias no Paraná?
Deni - Essa é uma tarefa do Estado, mas também dos empresários e da política econômica do governo federal. O Paraná já tem muitas indústrias que estão fechadas (referiu-se às indústrias moageiras de soja). A pergunta que se faz é por que elas estão fechadas. Por que muitas empresas optaram por esmagar a soja em outros Estados se nós continuamos a produzir o mesmo volume em toneladas? Isso acontece porque a política econômica está excessivamente voltada para estimular a exportação de grãos e não do produto industrializado.
Folha - O senhor acha que a agropecuária entra definitivamente na fase de exportações?
Deni - Não é apenas isso. Não podemos esquecer que temos um imenso mercado acima de 100 milhões de consumidores que pode e deve ser atendido. Inclusive temos necessidade de envolver nossa classe política para que elabore políticas a nível nacional para que a Agricultura possa atender também o mercado interno. Não tem sentido ficar no ciclo de exportar grãos e importar BMW. Para que adiantam os dólares das exportações? Só para comprar carros de luxo, para viagens internacionais de poucos, para sermos sacoleiros de luxo em Miami? Temos na verdade de gerar divisas que sejam revertidas para incorporar esse contigente de pessoas que estão à margem do mercado interno. Se houvesse consumo por parte dessa população, nem precisaríamos estar pensando em mercado externo. Este é um problema do governo federal, que precisa de superávit comercial.
Folha - Como o senhor tem visto a participação da classe política paranaense na defesa da agricultura em Brasília?
Deni - Nossos parlamentares têm atuado na defesa pontual dos interesses da nossa agricultura. Sinto que eles necessitam de uma análise mais profunda sobre os assuntos debatidos no Congresso porque uma hora vejo alguns defendendo a Lei Kandir, outra hora, vejo deputados criticando. Portanto, é preciso uma análise séria para que os deputados possam debater melhor o modelo exportador brasileiro e defender nossos interesses em Brasília. Daqui para frente, a briga para ampliar mercados também é política. Temos que encontrar um novo caminho. Em vez de exportar grãos para comprar BMW, temos que encontrar meios para fazer o povo brasileiro consumir. E essa discussão econômica passa pelo Congresso Nacional.

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