‘‘O amadorismo e a falta de iniciativa não têm mais espaço na pecuária moderna. É preciso inovar em tecnologia e produtividade, para obter uma propriedade rural economicamente viável’’, diz Paulo Horto, da Programa Leilões, que prevê para 1999 a ‘‘grande virada’’ da pecuária brasileira no sentido de melhoramento genético e aumento das exportações.
Para ele, os leilões têm papel importante no melhoramento do gado de corte nacional: ‘‘Neles os pecuaristas apresentam o que têm de melhor em seus plantéis e dão uma idéia da moderna pecuária brasileira’’. Explica: ‘‘Os leilões já são uma seleção autêntica do plantel, que representa o que o pecuarista tem de melhor’’. O criador que trabalha a genética, leva o melhor gado para os leilões, onde mostra seus animais para um público médio de 300 pessoas de cada vez.
Por isso, na opinião de Paulo Horto, o leilão é importante meio de divulgação da propriedade. O leilão tem, assim, dupla função: divulga a melhor genética brasileira e é veículo de comercialização de animais selecionados. ‘‘O criador precisa buscar a seleção, que é fundamental para a pecuária ser viável’’, destaca. Isto significa que o empresário em geral, não apenas o criador, precisa buscar aprimoramento técnico, ‘‘para ter boa produção em todas as atividades’’. O leiloeiro lembra que muitos agricultores vêm procurando essa melhoria, e que o pecuarista também deve fazer assim. ‘‘O leilão - destaca - é fundamental para distribuir a melhoria genética que existe no País.’’
ExigênciasApesar da exigência do mercado, de animais de melhor qualidade e desempenho, muita gente não se preocupa com excelência no negócio. ‘‘Sabemos de propriedades que ainda não usam reprodutores selecionados ou provados; não usam sal mineral, e/ou vermífugos adequados, que são coisas fundamentais’’, comenta Paulo Horto.
Ele destaca que esse cuidado é importante para chegar aos reprodutores selecionados, provados, que produzirão o novilho precoce. Este deve ser abatido aos 16-18 meses de idade, pesando 16 arrobas. Para isso, recomenda Horto, o pecuarista necessita fazer manejo ordenado, usar boas pastagens. E, para ter boa rentabilidade, é preciso investir também na estrutura da propriedade, além de investir na melhoria genética do plantel.
ExportaçãoO Brasil, que possui o maior rebanho comercial de bovinos do mundo, não é o maior exportador. ‘‘A viabilidade da pecuária brasileira está na possibilidade de exportação, que será garantida pela carne de boa qualidade’’, salienta Paulo Horto. No ano passado, o preço da arroba do boi produzido na Argentina chegou a US$48, por causa da exportação, pois seu mercado internacional é maior do que o consumo interno.
O Brasil tem possibilidade de exportar mais, acredita Horto. E não apenas porque possui um dos maiores plantéis bovinos do mundo, ‘‘mas porque nesse plantel existe muita qualidade’’. O que falta, diz ele, é a liberação das exportações de carne em toda a região Sul e Mato Grosso do Sul. O Paraná está para ser considerado área livre de aftosa e, dessa forma, liberado para exportação de carne bovina. A liberação melhorará os preços, que na última quarta-feira (13/1) estava estavam a US$23,19 a arroba.
‘‘Não precisa ir a US$40, mas a US$30 estaria ótimo’’, ressalva Paulo Horto. No entanto, para exportar bem, não basta ficar livre da aftosa. ‘‘Precisamos de qualidade’’, indica o leiloeiro, lembrando que os europeus ‘‘não comem carne do tipo da nossa’’. ‘‘Carne que para nós é boa, não tem aceitação na Europa. Eles consomem carne de novilho precoce’’, explica, ressaltando que o Brasil já tem know-how, ‘‘ótima tecnologia, mas poucos fazem uso disso’’ - são aqueles que já enviam para o abate novilhos com 18-20 meses, pesando na casa das 16 arrobas. ‘‘Pode-se obter isso tanto dentro do nelore como, principalmente, no cruzamento industrial com raças européias’’, assegura o diretor da Programa. Ele recomenda que ninguém tente fazer isso com ‘‘boi de boiada’’ (o pecuarista escolhe da boiada um animal que parece melhor, e o separa para ser o reprodutor do rebanho), mas sim optar pela seleção genética que comprove a qualidade do reprodutor.
DivulgaçãoO ‘‘grande papel do leilão’’, na opinião de Paulo Horto, é difundir a qualidade genética do gado brasileiro. Nas exposições, por exemplo, podem ser encontradas 30 raças, ‘‘todas com coisas boas para oferecer. Fora o sistema de inseminação, que qualquer peão, qualquer funcionário de fazenda, pode fazer depois de um curso rápido. Mas, não se deve fazer isso com ‘‘boi de boiada’’.
Horto considera o Brasil um celeiro de gado de qualidade, e se propõe a mostrar essa condição através de sua leiloeira. Como instrumento, além dos leilões tradicionais, na presença física de animais, de compradores potenciais e de vendedores, ele usa a televisão. Bota leilão na tevê, através do Canal do Boi e da Net Rural. ‘‘Queremos expor o banco genético nacional. Este é o papel da empresa leiloeira: intermediar com qualidade, seriedade e modernidade o relacionamento entre produtores. Todos têm uma experiência nova para transmitir’’.
O leiloeiro lembra que o Brasil é muito grande; cada região tem peculiaridades: em uma região faz-se cruzamento melhor com determinadas raças; noutra, o cruzamento ideal é com raças diferentes daquelas. Como no Pantanal, onde a temperatura chega a 40 graus e é necessário utilizar raças que se adaptem a essa condição climática. Após considerar as condições diferentes que existem nas diversas regiões do País, para se produzir carne de qualidade, Horto diz acreditar que 1999 ‘‘deve ser marcado como um ano de uma grande ‘virada’ nos caminhos da pecuária nacional, pois a possibilidade de exportarmos nossa carne bovina para o mercado europeu é muito grande.’’
O Brasil ‘‘já tem o melhor nelore e nosso gado europeu não perde para nenhum criatório do mundo’’, diz Horto. Ele aponta, entre o gado de origem européia, o melhor limousin, o melhor simental. ‘‘Temos que usufruir disso, porém poucas pessoas fazem pecuária moderna, e a maioria não desfruta desse trabalho’’, destaca.
CirandaUma das piores crises das leiloeiras nacionais ocorreu no biênio 96-97. Paulo Horto lembra que, naquele período, várias leiloeiras desapareceram, depois dos ‘‘picaretas’’ terem multiplicado o número de empresas. Em consequência da crise gerada pelos negócios da ‘‘ciranda’’, das cerca de 30 leiloeiras existentes no começo daquele período, restaram menos de 10 credenciadas. ‘‘Tinha muito aventureiro que trabalhava com o ciclo do gado na ciranda financeira. Existia um tipo de comerciante, o ‘picareta’, que comprava a prazo, vendia à vista e aplicava no mercado financeiro. Por isso, muitos leiloeiros faziam um mercado irreal. Os ‘picaretas’ nem precisavam ter terra para comprar boi, porque compravam num leilão, vendiam no outro. Por isso, nos leilões, aparecia animal com 5-6 marcas. Hoje não aparece animal com duas marcas’’, conclui Paulo Horto.
Somente a Programa vendeu, no ano passado, mais de 100 mil animais, no Paraná (onde a praça de Umuarama destacou-se na comercialização de gado de corte, seguindo-se, ‘‘de perto’’, no Estado, Londrina, Cornélio Procópio e Apucarana), São Paulo e Mato Grosso do Sul. Segundo a Associação Brasileira de Leiloeiras, menos de 30% da produção pecuária brasileira são comercializados através de leilões, enquanto na Argentina, Europa e Estados Unidos 90% são negociados por esse sistema.MercadoPaulo Horto: exportação garantirá viabilidade da pecuária brasileiraJota Oliveira

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