EXPORTAÇÃO EM XEQUE
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sexta-feira, 04 de julho de 2003
Reportagem Local 
A decisão do governo em apertar o cerco em torno da rastreabilidade a partir do próximo dia 15 - toda carne a ser exportada para a União Européia (EU) terá que ser de animais rastreados e inscritos no Sisbov (Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina) 40 dias antes do abate - pode colocar em xeque as exportações de carne brasileira.
Para o analista de mercado da Scot Consultoria, de Bebedouro (SP), Fabiano Tito Rosa, o Brasil não terá, de imediato, animais rastreados para atender toda a demanda a partir do próximo dia 15. Segundo o técnico, o fato preocupa.
Os números apontam que o Brasil ''vai pular miúdo'' para cumprir os compromissos e as metas com o mercado internacional. As exportações brasileiras de carne bovina em 2002 garantiram uma receita de US$ 1,1 milhão. O volume exportado foi de 966 mil toneladas em equivalente carcaça. Cerca de 4 milhões de animais foram abatidos para atender toda a demanda externa.
Como a União Européia absorve cerca de 45 a 50% das exportações brasileiras, logo conclui-se que 2 milhões de animais morrem para abastecer aquele mercado.
Estimativas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) apontam que o número de animais rastreados no Brasil é de 2,5 milhões de cabeças que, conforme a Scot, corresponde a apenas 1,5% do rebanho nacional (cerca de 170 milhões de cabeças).
Não dá para saber que volume estaria disponível para abate, uma vez que nem todos os animais cadastrados são animais de terminação. Baseado neste fato, Tito conclui que o País não tem, pelo menos de imediato, animais rastreados em quantidade suficiente para atender a demanda a partir do próximo dia 15.
Exportações são um compromisso sério porque mexem com todo o mercado da carne. As exportações têm exercido papel fundamental na formação dos preços da arroba do boi no mercado interno.
A cotação da arroba vem caindo ao longo dos últimos 20 anos. O ''privilégio'' não é exclusivo do boi. Essa tendência de queda é observada para a maioria das commodities agrícolas. Mas, no caso da carne, o mercado físico, nos últimos seis a sete anos, tem operado no que Tito chama de ''ambiente mais firme de preços''. Há uma coincidência com as exportações.
No decorrer do mesmo período o desempenho das exportações foi, no mínimo surpreendente, enxugando o mercado interno. Por conta das exportações houve aumento da margem dos compradores que puderam, desta forma, pagar mais pela arroba do boi.
O analista pergunta: teria a cotação do boi gordo chegado a R$ 60,00 por arroba, ano passado, como chegou, não fosse o bom desempenho do mercado externo?
Ele acredita que a previsão de R$ 65,00 para a arroba em outubro-novembro jamais seria atingida não fossem as exportações de carne.
Tito lembra que o mercado interno, tanto para a carne como para o couro, é um mercado frouxo. Não pode perder a referência de um mercado internacional. Hoje a defasagem do equivalente Scot (87,94% equivalente físico + 10,39% de couro + 1,77% de sebo) para a cotação da arroba do boi gordo paulista é de 4%, porém já chegou a superar 8% ao longo do ano, não justificando para o frigorífico que não atua no mercado externo pagar ''caro'' pela matéria-prima boi.
Com base nesses dados, fica claro para o analista que, mesmo respondendo por apenas 15% da produção nacional, as exportações contribuem para a firmeza dos preços praticados internamente.
Desta forma, o crescimento das exportações e, consequentemente a implantação de um programa de rastreabilidade, que atenda às exigências de quem compra a carne brasileira, é de extrema importância para a manutenção da saúde financeira de produtores e compradores.


